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Os dias são contados. O Tempo passa. E se caminha cada vez mais como se fosse um diário de um eunuco.

domingo

Dia 38 - Apenas um cão...

 
Tu não vai acreditar, mas quando ele chegou próximo, sentou e me deu a pata no meu colo, eu já tava apaixonado. Cachorros são maravilhosos e esse já tinha me ganhado antes de dizer "oi". Isso porque cães não falam. Se falassem...
Existe vários cães selvagens no mundo. A raça canina e seus derivados são incomparaveis com qualquer outro animal no mundo. No mundo! Pastores, de caça, rastreadores, recolhedores, lebréus. Warrigais, lobos, Dholes, coiotes e chacais. É um animal lindo e nobre em toda sua pose. Se um E.T. aparecesse pra mim e perguntasse o que é um animal doméstico eu mostraria um cachorro, e mostraria um cachorro que representa os cachorros. Um Golden Retriever. O mesmo que tocou no meu colo e ficou me olhando dando oi. Que cachorro do caralho. Eu sempre gostei mais de animais do que pessoas. Deve ser por isso que minha paciência acaba com as pessoas e me comporto como um animal. Um lobo solitário. Tá, você deve tá achando que eu sou poser. Foda-se. Não é você que paga minhas contas, então eu tenho direito de ser o que quizer, quando quiser. E eu decido ser um lupus caninus. Na verdade, um cachorro mesmo. Um cão desvairado que anda pelas noites bebendo qualquer merda e beijando qualquer boca.
Ainda assim, acho que o porra do cachorro me olhou lindamente me dizendo "Luiz, mesmo você sendo um bosta. Eu gosto de você." Esse cão exemplar que é quase um lorde comparado com qualquer ser humano está eventualmente no bar do zé. Eu odeio o zé. Só que o bar dele é cheio de cachaça barata. Entenda como quiser. E o cachorro vive lá, acho que ele está sempre bonito e reluzente, com um pêlo bonito e cheio de vigor. O zé é exculachado com cicatrizes na cara e marcas de época. Porque aquela carcaça é quase acervo de novela da globo. Me impressiona como cachorros são amigos, até de filhos da puta que águam a cerveja. Se o zé pode ter um companheiro maravilhoso, porque eu não posso deixar que ele me queira? Porra! Eu sou um filho da puta e o cachorro foi com a minha fuça.
"Eita, porra. Que o Baco não vai com a cara de ninguém." Baco. Eu repito o nome pro cachorro. Ele dá uma fungada deitando a cabeça no meu colo. "Tá dando comida pra ele? Não dá não!" "Tô dando nada. Cachorro sabe quando uma pessoa é legal."
"Pode até ser. Mas a última vez que o Baco ficou assim foi com a minha mulher. Antes de morrer. E também quando ele tá com verme." Baco com verme? É como Diónisio broxar. Díficil. E porque tu me entrega contra mim, heim Baco? Quero acreditar que não é despedida. E que tu realmente me curtiu. Mas não adianta me olhar com esse olhos lânguidos que a terra um dia há de comer. Se bem que dá até vontade de desistir, mas eu nunca descumpri uma promessa. E tu, tem tudo pra aproveitar. Pena, cara. Aproveita e me curte por um ano que eu curto você.
"Tá?" Ele lambeu minha mão. Se ergueu em pé encima de mim sentado e lambeu meu rosto. Puta cão maneiro. Vou até ir no emprego novo. Pois é. Tu acha que era ninguém aquele número desconhecido? Era o novo trampo. Check. Amanhã. Agora, o Baco e o bico.

quarta-feira

Dia 36 - Gasolina Azul

Não consegui dormir. Então decidi revirar toda minha casa procurando algo pra ler. Era algo bem específico. A revista do Capitão América nº 68. Edição em inglês que vale uma nota pela sua raridade. Boa estória. Nela, Capitão América tenta mais uma vez derrotar o Caveira Vermelha, mas, ele invoca a terceira versão do Screamer... ou algo assim... Que é uma espécie de um ser mitologico que retorna cada vez mais forte á cada vez que morre. Eu acredito nisso. Toda vez que morremos ficamos mais fortes. Cada encarnação uma nova força. Algo meio Wendigo. Wendigo é um ser elemental. Quase um mito para quem não acredita.
Mas eu fiquei procurando pela casa e encontrei tudo que já perdi nessa casa. Dados de sexo. CD da  Janis Joplin. Fita VHS. E eu acabei indo pro bar depois das duas ligação da princesa.
Ela me ligou mais uma vez quando eu tava no meio da pinga. Disse que tava na porta do Cine-teatro Odisséia. Onde eu tava? Pacote de M&Ms no lixo. Cartas de Magic. "No Bar do Zé." "Tá bebendo o que?" Uma luva esquerda. Livros diversos. "Pinga." Mensagem do Pessoa. "Tá tomando coragem pra noite, é?" Foi aí que me lembrei do Wendigo e do Capitão América. "Tô tomando na bunda." Um copo de cólera, Raduan Nassar. "Também quero." Pornopopéia. Puta livro. "Tô indo aí pra você tomar." O Wendigo defende as florestas e bosques comandado por Cernunnos. Deus da floresta. Ele devora o coração bebendo o sangue e o esperma de seus inimigos, se tornando mais forte e mais inteligente. "Mas antes eu quero dançar." Hoje em dia, acredita-se que se evoca o Wendigo pelo sexo. Pelo menos três vezes. Se houver relação com o mesmo parceiro, engolir esperma, sangue e toda sorte de fluídos. "Eu não sei dançar." Preacher. Playboy velha e grudada. Gasolina Azul. "Como não sabe?" Bolas de contato. Côco de rato. "Homens não sabem dançar." Coleção de selos. Álbum do brasileirão 2007. "Claro que sabe." Orgulho e Preconceito, Jane Austen. Não é meu. "Homem que dança é viado. Homem senta, bebe e olha pras mulheres dançando."
A Volta do Parafuso, grande Henry James. "Quem te disse isso?" Plínio. Abajur Lílas. "Todo bar de strip ensina isso." Teresa Filosófa. Anônimo do Séc. XIX. A revista! Achei! "Então hoje você dança comigo duas vezes. No clube de dançar e no clube de fuder. Primeiro na pista, depois na cama. Aceito gorjetas."
A lenda diz também que se troca energia. "Posso tocar?" Energia que une os corpos que se comeram não importa a distância. "É mais caro." Os une cada vez mais. "Puta como você eu pago o que for." Ao ponto de serem mais fracos sem o outro.
"Vêm." Essa vai ser a terceira vez que eu vou comer ela. Mas é só uma lenda, certo? Merda.

segunda-feira

Dia 35 - Suor

De quem nervoso, com as mãos, se vê frente a frente com o amor
Como quem de frente ao vício, sente torpor
Da mesma casta do frio na espinha ante ao temor
De igual forma para quem se alegra o louvor

Tal e qual como doença, sente o frio no calor
E sendo chama apaga para rancor
Ainda amado, pelo medo de ser pego
Sendo amante, pela ânsia de junto estar

Assim sendo puro, tudo suor
Ainda sendo labuta, apenas suor
Enquanto sendo orgão, química suor
Enquanto insônia, meu suor.

Essa porra me veio agora e não consigo dormir. Grato, A gerência.

terça-feira

Dia 33 - Nunca fiz santas tomando leite


Ela tomou 5 copos de leite. Pegou cinco copos e pós em fila na mesa da sala. encheu de leite cada um. Foi tomando um por um. Eu só ouvi o "cleck, cleck" dos copos vazios batendo na mesa.
No sexto, ela caminhou pro quarto.
Eu só ouvi os passos. Ela com um copo na mão, se ajoelhou no chão, no meio do quarto. Eu deitado olhando pra ela pensando: "Que porra é essa?"
Ela tava só de biquini com a bandeira do brasil estampada. Ela tomou o ultimo copo com dificuldade. Ficou aquele bigodinho de gato.Ela me olhou com uma cara de coitada, mas disse, "Pode socar."
Porra. Que isso... Não sei o que deu em mim, mas pulei da cama e soquei de primeira na boca dela bem aberta. Segurou a gorfada um pouco no começo, mas depois todo aquele liquido branco foi saindo, inundando minhas coxas, meu saco e como se saísse por todos os poros dela... lágrimas vieram também.
Ela fudeu meu pau com a boca e eu adorei isso. Adorei o leite. Não achei tão nojento quanto acharia antes se só pensasse. Têm algo de puro nisso. Têm um tanto de deus e beleza. Um tanto de sublime nesse caos leitoso.

segunda-feira

Dia 32 - É Assim Mesmo

A chuva caia torrencialmente sobre os dois. De terno ajoelhado e apontando a arma para Carlos Alberto. Aquela rua fria da china, aquela chuva escondeu o propósito principal: Vingança. Vingança para matar a si mesmo. Desde quando descobriu que tinha um outro como ele. UM outro ele, Carlos Alberto resolveu se vingar. E aqui, agora, Carlos, o medroso apontava para Alberto, o macho que sorria na chuva. "Atira." Ele disse para si mesmo. O gatilho ressoou mudo mas o sangue se minguou e águou.
O medroso venceu.

É Assim que termina o livro. Depois de dois dias de leitura e dezessete ligações no meu celular. Quase quatrocentelhas de páginas. Interessante. A história é de um cara que não tem motivação e decide encontrar a si mesmo, mas no meio do caminho... ihh, cacete! Catorze chamadas não atendidas do Padawan.
Uma desconhecida e duas da Pequena Sereia. Fudeu, pra ligar assim deve ter acontecido algo. Tô falando da Pequena Sereia. Quero mais é que cueca espere. o Padawan é meio neurotico. Se você fala que vai tomar um copo de merda. Ele pergunta quinze vezes se tem gosto de galinha. Ele tá meio assim com o livro. Quer saber que gosto tem. Tem gosto de um copo cheio de merda. Mas no bom sentido.
Mas isso ele ainda não sabe e vai ficar sem saber porque ela me ligou fodamente. Pô, ligar mais de uma vez pra mim, sendo mulher, é foda.
Tô sem crédito. Tô sem vontade de levantar. Fiquei esses dois dias lendo e bebendo. Tocando uma também. Mas acabou o estoque de bebida, páginas e porra.
Tá na hora de ir atrás de algo. Rapidamente.

sexta-feira

Dia 30 - Padawan


Da Bílis ao Pâncreas é apenas uma retenção. Esse é o título do livro do Padawan.
Agora é a hora de falar do Padawan. O cara era amigaço de uma mulher que eu comia, ai a mulher me falava sempre dele. Não dei bola, pode comer quem quizer, acabou que numa briga no meio da Lapa, cinematográfica, diga-se de passagem, eu e ele acabamos um do lado do outro contra quatro seguranças. Moral da história: estamos vivos. Porém, até hoje minha rótula faz um cleck estranho.
Quando corremos... sim, corremos... em direção á muvuca mais próxima pra se dissipar da porrada e dos canas resolvemos ir numa banca de drinks toda iluminada. Rindo de tudo e meio resfolegante, descubro que o antônio faz agronomia, gosta de cinema e todo mundo chama ele de padawan, por causa do rabinho pendurado na cabeça raspada. Unica vestígio de cabelo remascente. É tipo um dread.
E também, por causa do vício em star wars. Ele têm o símbolo rebelde tatuado no tornozelo. Não me recordo qual. Aí, passada a tensão e o anúncio, meio que olhei pra ele e me baqueou um ciúme bobo.
Eis que dois anos depois, ela vazou. Ele ficou mais meu amigo do que dela. E agora tô aqui com o exemplar do livro publicado em mãos. Na assinatura tá assim, "Para o Zé.Zé buceta mais escroto e mais irmão que já podia ter. Bom que escolhi, né? Abraços, A.K.G."
Nunca entendi o sobrenome dele. É uma mistura de duas nações colonizadores e um império neolítico. Se é que isso existe. Anyway, tô aqui deitado com uma capa toda branca com duas gotas de sangue e o título em alto-relevo.
Ele se deu bem. Estava num bar fraseando umas poesias e um cara falou que duvidava que ele repetisse isso tudo de novo. Padawan olhou pro cara, olhou torto, mas olhou pro cara. Pegou uma porrada de guardanapo e uma caneta. Escreveu 15 páginas de uma viagem.
Não era poesia. Era o começo desse livro que ele nem tinha idéia do que era. Nem tinha pensado em livro. Nem tinha pensado em nada. Só escreveu.
Acontece que o cara gostou e falou torto também que era uma ótima idéia e que ia vender bem. Pegou o contato dele e agora um ano depois, o bagaio é publicado. 20.000 exemplares pra começar.
É como diz aquele ditado: O ébrio escreve certo por linhas tortas.
Abro a primeira página e o telefone toca. Não vou atender. Vou ficar aqui lendo isso.
"Espero que isso doa mais em você do que em mim." Disse Carlos Alberto ao enfiar o pulso quase inteiro no rabo de Leonice. Ele em prantos, só pensava na cavalgada das valquírias. Ela, no quanto ainda aguentava.
Leonice era moça e essa era sua primeira vez com Carlos depois que ele finalmente aceitou o fato de que nunca mais poderia ter uma ereção na vida depois do acidente. Agora, ele chorava toda vez que tinha uma excitação sexual, mas não tinha volúpia. Não tinha movimento. Não tinha ação.
Ele pensava em sexo, pelo menos, sete vezes ao dia.(...)"

Começo poético, não? Já vi que a noite vai ser longa. Melhor fazer um café.

quarta-feira

Dia 28 - "Pensei que fazia Química."

"Arquitetura."
"Serio?"
"Serio. A tattoo é só pela fórmula. ia fazer da caféina, mas quando vi um cara num vídeo com cara de retardado com a mesma, desisti."
"São fórmulas diferentes. Uma é matemâtica e outra é química. Não têm muito á ver."
"É... E daí? Me deu vontade de fazer e eu fiz." Culhões. Isso é o que existia do outro lado da linha.
Pelo vistos, eu liguei. E foi e está sendo bom. Enquanto eu escrevo isso eu olho pra ela dormindo com seus cabelos pretos bem cortados e o perfume. Chance, eu acho na minha pele.
Ela nunca ouviu Blues. Não entende nada de jazz, mas gosta do John Lee Hooker. Ela agora tá nua atravessada na cama num sonho profundo. Os peitos dela são lindos e batem de longe o da 'peitos de menino', que por coincidência e estória retro-pós-parecida, estão lá pelos mesmos motivos.
Além do símbolo químico, na parte onde têm uma marquinha de biquini quase apagada têm outra tattoo. Um planeta estranho. E no pulso, um cometa com um menino encima. O Pequeno Príncipe no corpo da pequena princesa, porque eram saltos mesmo.
Ela toca guitarra pra encher o saco da mãe. Sabe jogar video-game. De tiro. Bebe bem e dirige mesmo com a visão turva e passou a última madrugada depois de muito sexo, deitada no meu colo assistindo filme enquanto tocava uma pra mim.
Você, cara, vou te dizer... Não sei porque tô te falando essas intimidades cheias de nerdices transviadas, mas eu quero.
Ai, nos fomos beber vodka. Tá. Eu juro que queria beber outra coisa. Mas assim que a vi, ela me deu um beijo tão erótico e gostoso que se me convidasse pra uma seita satânico com direito a sacrificio meu, eu aceitava. Até beber gasolina.
Louise. Soa pomposo. Mas, eu gosto.
Bebendo nesse lugar, eu acabei conhecendo um gringo estranho que mora aqui no Brasil há 20 anos e ele têm esse bar meio isolado. Como estava bêbado me deu vontade de conhecer e lá fui eu com a mina de tira-colo. Achei que ela ia cagar no pau por ser um desconhecido.
Ela tava era mais tranquila que eu, que quando chegamos no endereço do Austríaco, era uma rua meio deserta bem na entrada de um morro. Gringos. Go Figure.
A porta era de madeira, daquelas enormes numa casa de pedra, daquelas antigas que parecem que vai cair em alguns minutos. Ao bater na porta, o gringo foi recebido pela suposta mulher, fiquei mais tranquilo por dois motivos. Não tava afim de ser coagido por um gringo a comer a pequena princesa junto com ele e se agora rolasse, pelo menos tinha outra no meio. Mais sussa, mas não queria dividir ela com ninguém. Tudo dentro era reformado. E frio. Bem frio. Mas tinha bastante gente e um palco onde um piano de calda enorme dividia o pequeno espaço com dois músicos. Um na guitarra e outro na gaita.
Meus olhos brilharam ao ver aquela fumaça de cigarro em volta e as cervejas rolando ao som de um blues tradicional do Delta.

Ela adorou. "Nunca ouvi jazz ao vivo." Ela sorriu e me olhou e apesar da minha primeira impressão, descobri ao olhar aquele momento pra ela que não havia nada de extraordinário nela. No sentido de riqueza, eu digo. Ela era filha de alguém que a mimou. Mas, inteligente, curiosa e esperta, essa porrinha de 1,68 cm sabia mais que muita mina cult que já conversei.
Não era patricinha. Não era pomposa. Mas eu ainda gosto do nome e ainda vai se chamar Pequena Princesa. Minha mente. Minhas regras.
Era o que deveria ser. Alguém curiosa, com cheiro bom e vontade de sexo. Que mesmo bebendo á veras, não fica com cheiro de bebida. Acho mesmo que desse fim de semana ela não sai daqui. Primeiro que não deixo. Segundo porque ainda têm um tempinho pra me cansar dela. 
Peraí, tô divagando. Acontece que o Austríaco doido botou bebida pra gente pacas. Não pagamos. Vai saber porquê. E ele ainda queria que a gente ficasse por lá. Seria bom, começar um trabalho mais sossegado num bar desses. Na verdade, se eu me lembrasse onde era. E não tivesse apagado e acordado com um mulher linda encima de mim dando bom dia enquanto subia e descia me mordendo e me beijando, eu iria lá.
Dane-se. Ainda bem.