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Os dias são contados. O Tempo passa. E se caminha cada vez mais como se fosse um diário de um eunuco.

segunda-feira

40 Dicas de auto-ajuda para fazer 40 vezes

Acreditar em você, mesmo que seja verdade.
Arranjar uma briga com um desconhecido e quebrar uma garrafa de cerveja. Sem cerveja. Na cabeça dele.
Criar algo com as próprias mãos e sem viadagens burguesas, por favor. Criar uma cadeira, uma mesa, apertar parafusos, bater pregos. Algo funcional e bem feito.
Ler um livro em outra língua.
Fuder. Muito. Fazer amor. Nunca.
Questionar autoridade religiosa. Ninguém sabe mais e tem mais razão do que você sobre o que você acredita, mesmo que seja mentira.
Cuspir na cara de quem você ama. Você sabe o que quero dizer...
Rasgar panfletos.
Cantar confiantemente com o fone no ouvido. Não se preocupe. Não tem ninguém ouvindo mesmo dentro de um trem lotado.
Comer de boca aberta e arrotar sua comida favorita.
Bacon faz bem. Não importa o que digam.
Nutella faz bem. Não importa o que digam.
Bacon com Nutella. Sim.
Ninguém sabe fazer Milkshake. Só você sabe. O seu jeito É o mais gostoso.
Aprender um prato novo em toda oportunidade que aparecer. Você pode esquecer. Mas aprendeu.
Ria alto para caralho quando algo for engraçado para caralho. Só você sabe o tamanho da sua felicidade. Foda-se o constrangimento alheio.
Fique bêbado, vomite, cause vexame, se mije, discuta com o garçom a conta, tente beijar a mendiga, durma na volta pra casa, volte a pé seja lá onde você acabou acordando, cure a ressaca. Mas ligue no dia seguinte pedindo perdão para todos seus amigos. Eles merecem te aturar e você ouvir a porra da história da noite passada.
Nunca negue um convite aleatório e fora dos seus planos.
Se você se comprometeu a alguma diversão há tempos, mas surgiu outra melhor, escolha a melhor e não tenha vergonha. Se te encontrarem, era porque era bom de verdade. Se não, era porque eles não sabiam que era bom.
Gosto não se discute. Gosto ruim sim.
Rola. Cu. Buceta. Caralho. Xoxota. Pemba. Buraco. Nunca Vagina ou Pênis.
Trabalho de verdade é aquele que te faz feliz.
Ninguém pode te dizer a direção da sua vida. Se nem você sabe pra onde a sua vai como esses putos podem saber sequer o caminho que você deve tomar?
Escolha uma atriz pornô preferida. A minha é a Sasha Grey na punheta, e a Stoya na personificação. Homenageie sempre. Vale para homem e mulher isso.
Subúrbio é o melhor lugar no mundo. Até na Europa e nas USA.
Fuja daqui o quanto antes possível.
Viaje sozinho e esqueça-se dos outros. Pense em você, arranje um amor distante, faça aquelas coisas amorais que você sempre quis, mas não tinha coragem. Volte e agora repita tudo o que você fez na viagem onde você mora. Nunca se reprima.
Drogas é uma palavra feia pra caralho. Use para chocar.
Use drogas. Pelo menos uma vez para saber que porra você está falando ou fique calado e não cague regra. Enquanto escrevi essa bosta sem sentido, estou sob efeito de álcool. Foda-se.
Dinheiro gasto entre amigos é um dinheiro sempre bem gasto.
Quando a merda apertar, ela aperta tão forte que seu esfíncter vai fechar. Não tema. Nessas horas, você vai descobrir quem está do seu lado. E se quem você acha que estaria não está, não julgue. Esse sujeito ainda serve para pagar a conta do bar para quando você der um calote na mesa.
Chupe manga e se babe.
Apaixone-se por animais e odeie quem os maltrata.
Amigos com benefícios. Tenha sempre dois ou três. Namoros terminam.
Não esqueça quem te esqueceu. Essa gente nunca vai saber o gosto bom que é a lembrança. Isso é um salva-vidas.
Ouça a música do seu país e realmente tente entender algo sobre isso. Se você que nunca ouviu nada ou só por alto, escolha alguém, nem que seja o mais óbvio. Sua vida vai mudar ouvindo coisas que representam os valores que estão mais próximos.
Não confie em artistas que aparecem em comerciais de refrigerantes e genéricos. Eles nunca vão mudar a sua vida.
Perceba. Você sempre vai admirar as grandes obras da humanidade, mas sempre vai ser influenciado pelas mais obscuras porque são mais tocantes e te falam no íntimo. Não tenha medo de dizer que gosta de algo que ninguém conhece. Isso é o que faz você.
Não me ouça. Esqueça tudo isso e faça tudo ao contrário. Você pode. Ninguém sabe da sua vida e isso aqui é totalmente pessoal.
E, por último e mais importante: Nunca mais leia uma porra de lista dessas.

sábado

Superstição

Com dezesseis anos, os touros perdem a audição do ouvido esquerdo. Por muito tempo, foi-se dito que era apenas por um motivo único de superstição. Senão perdessem, não seriam reprodutores fiéis. A verdade é que eles comiam muito capim e aquele vegetarianismo involuntário fazia mal. Na Espanha, acontece a Rapa de Bestas. Todos os cavalos nesse vilarejo são raspado com navalhas, tesouras e estiletes como uma tradição. É uma precaução para afastar maus espíritos do vilarejo e para constituir tradição. Não sei como podemos cumprir o castigo de nunca encontrarmos quem precisamos. Nunca encontrar a pessoa certa. O que preciso fazer além de rir dessas tradições e religiosidades?  Por todos os deuses, me ajoelhar e agradecer? Aceito até deixar a lógica de lado. A partir de agora, todas essas coisas são parte de mim. Mas só para ser feliz.
Como um cigano, tu retificas as linhas de minhas mãos e se enterra no meu corpo com rumores de uma Santeria negra.
Não consigo andar num corredor escuro sem olhar para trás com medo de algum vulto.
Sua calma serena como de Shiva. E a mão que treme de uma curandeira no meio da selva pedindo o mais sacro de todos os bens.
Tua chegada é como o ressurgimento de uma nova língua, um novo país. Um novo cântico folclórico.
Um Poltergeist original que marca minha pele com arranhões invisíveis é assim que você já está gravada na minha vida.
Um Inuit sem teto no meio da nevasca. O Tao do erotismo. Tudo tu controlas com imensa qualidade.
O céu nunca será nosso. Nem o Inferno existe aqui. A bola de cristal já está quebrada. Nem as cartas de Tarot conseguem ler nosso destino. As borras de café não mostram nada nem a piromancia de nossa cama prevê nosso fulgor.
Os cães que ladram lá fora são os únicos que cheiram nossa inútil tentativa descobertas de... será que vai dar certo?
Lá fora, eles nos observam quando passam em bandos de quatro ou cinco atrás de uma cadela qualquer no cio. Param e nos encaram. Eles sabem algo a mais que nem o sexto sentido feminino pode prever. Formulando perguntas que não tem respostas continuamos seguindo. Quero amor. Quero cerveja. Quero ser amado. Pelo amor de deus, isso não tem nada a ver com a porra do amor e a gente tá descobrindo isso a cada século que passa.
Aliás, o que você era na índia? O que você reencarnou no novo reino de Tuthankhamun? Qual parte do lago naquela tribo Polinésia a gente não se esbarrava. Eu agora acredito em tudo. Se tudo der certo. Se tudo, der certo.

-TM / 2015

quinta-feira

Nunca Esquecerei

Ainda bem que você atendeu. É. Eu mudei o número. Tu não atenderia mesmo. Espera. Deixa te falar uma coisa?
Teus olhos. Teus olhos. Não me deixa. Eu preciso te dizer e não me pede para ficar calmo.
Como você bebe o mate no café da manhã e a cerveja no bar no fim da tarde. Eu gosto de tudo em você. Teus cabelos rosas, assim, Rambo em missão de paz, assim, pronta para a guerra. Tua cara de dúvida. De tristeza. De você. De quando eu perdia o tempo comprando flores quando você preferia calcinhas. Comprei calcinhas com bordados de flores.
Do cheiro de perfume barato. Natura. Boticário. Quando eu coloquei aquela porra de Gio para mim e tu odiou. Cadê teu cheiro, homi?
Nunca Esquecerei.
Humor zero. Lástima dez. Firmeza de segurar bolsa no fim da tarde de quem perde tudo. Assim. Como quem perde tudo. E tu andou do meu lado aquele tempo todo. Procurando um lugar. Apenas para chegar. O fim da tarde. E teu caminho. Tua boca. Tua dança. Você. De regata do Flamengo slow dancing The Cure numa tarde quente de domingo. Tu não imaginas como és. Nem um pouco.
Tua cara de sono quando está deprimida e quando a gente briga por amar mais do que o tempo e o vento e não me deixa ficar quieto. Eu preciso falar. Essas coisas que a gente faz sem saber por ter começado. Eu, bem feliz que tu veio que a gente começou que o Inferno é mais frio no verão ouvindo as âncoras da salvação e você no porão da minha mente batendo a bigorna com o martelo de ferro pesado pesado como quem tenta lembrar de tudo sem ponto sem vírgula sem fim eu ali brincando de três reis magos presente mirra esperma carinho errei muitas vezes a casa esqueci a chave quando tinha que voltar a gente ali pensando onde eu me meti onde mete por favor mete Teus Olhos Teus Olhos relutantes e lindos como sempre e agora acredito dessa vez é para sempre. Respira.
Puuuuufffff
arfa arfa
iiihhhaaasssss
Dói como um vulcão embebido de calor.
Tu não tá entendendo nada. Eu tô parando. Mas eu não consigo. É tipo vício. Eu tô vício. Eu tenho Rachel aqui escrito todo no meu corpo. Essas tattoos dizem você all over. Porra, eu tô tentando ser coerente. Mas eu quero que tu entenda.
Eu não sei te deixar.
Nunca esquecerei, Rachel. Todo santo dia da tua existência existência na minha vida enquanto tu me suportar tu tem pau na sua xoxota e você sentando o quanto quiser. Desculpa. Eu calo a boca. Eu te respeito. Perdão. É. Eu sei que as pessoas não gostam de ouvir isso. Mas é uma puta d'uma mentira. A verdade é que ninguém tem coragem de falar o que sente. Eu? Ridículo. É sempre assim quando a gente tá com vontade de dizer as coisas. Rachel, vai tomar no cu! Eu falo o que quero e o que tenho vontade.
Nunca Esquecerei.
Nunca.
Tu sabe o que quero.
...
Eu quero você de volta, sua puta. Desculpa. Não tô te xingando. É só um jeito carinhoso de te falar. Sabe? Tipo, amigo que chama o outro de viado.
Para você chamar de seu, eu me transformo em qualquer coisa.
Você só tá falando isso para desligar o telefone.  Eu sei que eu tô confuso mas só quem tá desesperado vai entender bem o que quis dizer. Só quem ama é desesperado. E eu tô desesperado.
Diz que me ama? Tá bom. Não vou forçar.
Tu promete que me liga? Mesmo?
Tá. Eu vou ficar aqui esperando. Eu posso passar aí para a gente conversar.
Não? Porque não? Tem mais alguém aí? Deixa eu te ver... tá. Eu espero.
Me liga?
Beijo, Rachel.
Ei.
Eeei.
Nunca Esquecerei.

terça-feira

DEUS

Deus
Esse velho bêbado desocupado
um bando de anjo torto
correndo nu, brincando de pique-pega do seu lado
No carnaval, se fantasia de mendigo
para, nas cinzas, curtir o feriado
se benze quando passa por macumba
amém, quando bebe vinho
bola de gude, nos buracos do Flamengo com os meninos
se parecem anjos tortos
correndo seminus, brincando de pique-pega com os carros
Se encontrou com um preto abatido
numa estrada encruzilhada, muito fingido
abençoou a viola do negro, como quem não quer nada
Riu, do blues, batizado pelo coisa boa de branco
para ouvir no céu
uma banda de um anjo torto
correndo notas, brincando de músico do diabo
tanta palhaçada, meu deus
doze pessoas numa mesa
bebendo vinho do bom
e pão quentinho
rindo como se não houvesse amanhã
um bando de anjos tortos
correndo nu, brincando de pagar prenda com ele.

Deus
Esse velho bêbado de vinho
gosta de musica do "demo"
de carnaval na quarta
e rir da nossa cara até morrer.

Três Dias de Fogo



Fazia tempo que eu não me sentia assim. Com sorte. Essa sorte estranha que vem não sei da onde e se estabelece como um karma. É como se o universo soubesse que você está bem fudido e te dá uma chance de esquecer um pouco os problemas. Esquecer um pouco sobre você. Eu descobri depois desse tempo todo andando por essa terra que sou um indeciso sentimental do caralho. O que acontece é que se alguém me destrói emocionalmente, se me faz perder a fé do amor, eu adianto logo a personificação do homem perdido e assumo a minha nova característica. Eu perco a fé do amor, não a do sexo. Nunca a do sexo. E é isso que me faz procurar mulher novamente. Ir atrás. Pode demorar uma semana, um mês ou seis meses. Eu demorei dois meses na penúltima vez. Foi uma gorda que reapareceu na minha vida. Uma gorda que se acha artista. Ela pintava nus ou algo assim. Ela era histérica, maluca e o pior... Não é a hora de falar sobre ela, isso fica pra depois, mas foi nessa louca que descobri que tinha uma deficiência em acreditar no relacionamento tão rápido. Eu sempre vou amar as pessoas, mas nunca vou me entregar tão fácil assim. E eu me apaixono tão rápido quanto um veado goza se masturbando com um pé de cabra no ânus.
Ficando um tempo sem procurar ninguém e disfrutando da minha vida de putaria, ela apareceu. Não vou ficar marinando a parte romântica porque isso não interessa aqui. Basta dizer que foi boa o suficiente para eu queimar como uma tora vira carvão e ainda querer ela. Só ela. Seu corpo duro e macio, seus cabelos pintados de vermelho, os seios lindos, a bunda firme, a buceta linda, mesmo com experiência suficiente para manter qualquer macho trabalhando a noite toda, preservada, cheirosa, viva.
Mas vem aquela cobrança feminina de que tu deve mudar mesmo sabendo a hora do que deve acontecer. E a necessidade de querer as coisas. Me irrita a incapacidade social que a mulher tem em se sentir fortalecida por um homem protetor. Eu quero que se foda isso. O que eu quero é uma mulher independente de si e da vida. Independente e maluca. Quando ela começou a perder o brilho e o encanto, eu dei o passar bem. Porque não se pode tirar o foco da dor e colocar o desespero á frente. Não na frente de quem te conheceu sendo tão forte. Nunca perder as rédeas.
E como notícia ruim de homem solto na rua é notícia que corre rápido entre as mulheres, nasce um fogo quase absurdo. É a competição. Terrena. Simples. De quem come primeiro. Nós homens não percebemos isso, nós ou estamos sofrendo muito e matando a dor dentro de uma caneca de cerveja dentro um bar qualquer ouvindo Amado Batista tocando alto no som ou estamos tentando achar o maior número de buceta possível para comer e remediar a dor. E como um homem precisa comer várias mulheres para esquecer uma mulher. A mulher.
Então fica parado e espera. Foi o que fiz. E foi o que a Madá fez.
A Madá é alta, cabelos escuros, e, pele branca. Tatuagens horríveis, mas uma boca e sorrisos lindos. E que vontade de dar. Que xoxota linda. Ela mora longe e eu tive que ir a ela, ao mesmo tempo, a Samara veio dar um ombro amigo. Me disse que estava devendo se embriagar com ela numa noite dessas. Uma ruiva natural, cheia de sardas. Como morava na mesma região da Madá não me precipitou.
Encontrei a Madá no cinema e nos pegamos como se não acabasse o dia, era de tarde e estava muito quente que nem o ar condicionado funcionava. Seu short jeans e top usando uns óculos bem nerd. Aquilo me deixava excitado e só pensava em gozar com ela usando eles. Saímos do cinema e fomos para um lugar que tinha logo perto. Ao entrar, ela já ajoelhou e foi mamando minha vara que estava tão dura e pulsando que fez ela engasgar ao enfiar na garganta e não foi pouco. Soquei até lacrimejar. Mas ela não fraquejava. E tomou minha porra toda. Ela tinha que ir para o trabalho. Seu primeiro dia naquele pub. É um nome chique para um boteco. Mesma merda, cerveja mais cara. Falei que ia esperar ela. Depois de ir para o trabalho, fui para a praia e fiquei bebendo a tarde toda. Vendo as mulheres. Mais tarde um amigo meu, Luigi apareceu e ficamos bebendo conversando sobre política e essas coisas que a América Latina está tão preparada mas sempre enrabada. Essa puta velha ainda aguenta muita pilantragem. Até ele continuar bêbado e agressivamente efusivo. Mas ainda faltava mais algumas horas para ela sair do bar, então, resolvi ir para um motel e mandar algumas mensagens para ela, esperando ela. Querendo que ela entrasse como se fosse uma puta. Que pensassem que era garota de programa. Enviando fotos para ela. E ela respondendo do bar. Mandei-a ir ao banheiro e enfiar o dedo bem fundo na buceta e servir os clientes assim. Com cheiro de xoxota. Quando ela finalmente saiu do trampo, entrou no táxi e veio voando para o motel. Tomou um banho. E fudemos o quanto conseguíamos. Estavamos muito cansados. Eu bebi demais e ela estava exausta. Um monumento de mulher que sempre desejei e eu estava cansado. Que se foda. A vida acontece.
No dia seguinte, nos arrumamos e continuamos a nossa vida. Ela foi trabalhar e eu também fui resolver meus problemas. Samara me ligou algumas vezes e Luigi, no meio dos seus surtos, me disse, “se você quiser, não estou dizendo nada, mas você consegue pegar fácil. Não sei se come, mas pega fácil”. Eu nunca entendi direito como essa coisa de perceber que alguém quer algo contigo, funciona. Eu nunca reparei. Sempre passo como se fosse uma nuvem e não capto nada. Precisa ser bem direto. Precisa me dizer claramente como a Madá. Que me ligava para falar que estava louca pra fuder comigo. E eu entendia. Então, a Samara estava ali. Assim. Sempre senti tesão por ela desde a primeira vez que vi. E hoje a noite íamos nos encontrar para beber com a galera.
Foi uma festa de amigos que acontece sempre. Quase que religiosamente toda semana. E lá estava ela. Tocando violino pra galera. Bem branca. Começamos a conversar e cortei logo a conversa.
Eu sei que você quer... Para de falar e me beija.”
E daí começamos a se beijar, meu celular tocou algumas doze vezes e ignorei. Mais tarde da noite descobri que era a Madá. Mas aí já tinha colocado a Samara em pé solta no espaço segurando e equilibrando ela apenas pelos braços presos nas costas enquanto socava a rola nela. O barulho das batidas do meu saco na pele dela me dava mais tesão e eu fudia com mais raiva. Minha vontade era de suspender ela na pancada do meu pau. Até gozar. Ela ficou com um certo ciúmes e senso de nocividade quando descobriu as ligações. Que se foda. A gente é sempre posse de alguém em qualquer dado momento. Se você acha que não, pense de novo. Liguei bem mais tarde para a Madá marcando algo pro outro dia. Marquei um almoço, e, realmente aconteceu, mas sem ela. Eu tenho um código de honra muito digno, que funciona muito bem. Eu vou onde me convidarem, mas se houver algo melhor para fazer eu desmarco. E nunca neguei isso. E esse almoço foi com alguns amigos, umas cervejas e uns sambas. O centro do rio fica muito bonito nas tardes de sábado. E a rua do mercado é um ótimo cartão postal da pós-foda do fim de semana. É para ficar entre amigos. Na mesa que estávamos do outro lado tinha essa menina com um olhar muito sexy e com pernas intermináveis. Ela me encarava e resolvemos tomar uma cerveja. Perguntou sobre uma marca no ombro. Se era algum beijo. Era uma mordida. E tinha sido da foda da noite anterior. Ela sorriu sem se assustar com a informação e levantou a saia preta e curta mostrando as marcas na coxa. Falou bem no meu ouvido, “Tomei pirocada ontem a tarde toda.”
Só ontem?”
Sim.”
Eu tenho outras marcas da semana. Quer ver?”
Quero você me comendo e contando como foi. Isso me dá tesão.”
Saí daquele restaurante levando ela direto para o motel. O mesmo quarto da primeira noite. Fiz de tudo. E tudo ela pediu. Mas essa merece detalhes e estou a mercê do tempo. É isso que eu quero o tempo. Ela contou e marcou todos os arranhões e hematomas. A base do osso do meu pau já estava dolorido, mas a gente continua. Eu só me dei conta dessas façanhas putanhescas depois que percebi o que aconteceu. Depois que a mulher que era posse de verdade me ligou. Depois que toda vez que transava comparava. E sempre imaginava ela lá, mandando a mulher fuder direito. Que eu gostava de outro jeito. Que se não fizesse direito ia mijar na boca dela. Dá esse cu, caralho! Saí daí, é assim que se dá um cu. Aprende sua vaca. E gozava.
Todas as vezes.
Três dias de fogo e eu só pensava nela.


Jonas, A Gente Precisa Conversar

Jonas, a gente precisa conversar. Larga esse copo e me olha. Jonas. Poxa. Existe uma diferença muito grande entre eu e  você. O que tanto tu procura quando sai com esse bote?
Jonas. Me responde.
Não tem baleia nenhuma para você caçar... sai dessa ilusão Jonas. Seu pai não vai voltar. Pensa no agora. Pensa na sua vida. Pensa na gente.
Eu sei, mesmo sem você dizer uma palavra, que a baleia matou uma parte de você faz quinze anos. Mas você tem que superar isso. Eu tô aqui e só você não vê. Larga aquele bote. Não! Não vai embora. Desculpa, eu só quero ajudar. Não gosto quando você faz essa cara, e tá tão frio hoje. O que é isso? Um arpão, Jonas?! Você vai mesmo caçar aquela baleia nesse breu? Pera. Anda mais devagar. O Moby Dick não vai aguentar. O Mar tá revolto e parece que o tempo vai virar.
Jonas, por favor... fica.
Eu faço o seu guizado de carne que você sempre gostou. Gostava. Não sei mais. Mas quero saber, quero cuidar de você. Eu tô aqui te esperando. Esse tempo todo. Só, por favor, para de andar um pouco e olha para mim. Isso.
Vamos sair desse cais. Eu tenho um pressentimento ruim, meu amor. Se você pegar esse bote e entrar nessa névoa é para nunca mais. Eu não sei o que eu vou fazer se você não voltar. Eu não aguento mais chorar esperando você. Eu não aguento mais.
Jonas, a gente precisa conversar. Eu quero você aqui.
"Joana, eu vou entrar nesse barco. Eu vou encontrar com o meu passado pois a memória é um peso que nos puxa para baixo. E se eu sobreviver a essa baleia, amanhã eu volto para nunca mais."
Jonas, eu vou te esperar aqui.
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Jonas entrou no bote, olhou para trás sério como quem não acredita no que vê. Empurrou o bote do cais com um remo e entrou na névoa. Joana sentou com as pernas dobradas no cais, apertou o casaco, se encolheu e olhou para onde Jonas ia até sumir na noite. Ela ia esperar.

Domingo não é Andrea Doria


A tristeza é Andrea Doria no frio sem vinho, nem cerveja, nem nada.
Não dá pra improvisar, nem o mundo será um livro aberto quando se é Inverno.
O Inverno é bom por isso. Tem muito silêncio, muitos quilos a mais para te fazer companhia, melhores filmes (no Hemisfério Norte é verão nos USA, que faz o Sul ter muito filme de pipoca e é época de pipoca), tem chocolate sem grudar no dedo, tem cobertores. Têm Domingos também, longos Domingos, quase intermináveis. As pessoas não sabem a fatalidade que é um domingo. Domingo não é Andrea Doria. É pior.
É Andrea Doria com açúcar e uma cereja encima sem ter chances de afundar o navio.
Domingo é o inimigo do Inverno. Não são as pessoas que amam o calor, essas insanas. Não são os dias de trabalho quando tá chovendo. Isso a gente convive. Nem o Fog as 5 da manhã, muito menos o desgraçado do esportista que corre as sete horas em ponto usando um maldito short fosforescente que se poderia você jogava o carro encima daquele corpo saudável. É o Domingo. É o motivo de guerras. A gente quer acabar com isso. Domingo é tão ruim que o descanso dos Judeus é no sábado. Vê? Até todo um povo renegou esse dia. Porque é nocivo. Domingo deveria ser um nome de alguma doença. "O senhor está com Domingigite. Vai ter que amputar." Antes fosse...
Antes pudesse amputar.
Conheço gênios que se ressacam para suportar o Domingo.
Conheço pessoas que tomam remédios para não existir Domingo. Ao falar com elas, elas dizem "Hoje é Domingo." É um código universal. É como se fosse um erro magnânimo ter ligado no Domingo. Cogitar fazer alguma ação nesse dia. Façam algo no Domingo! Não errar no Domingo é deixar que o Domingo seja importante. Que ele vença.
Nunca enquanto estiver sob minha vigília!
Andrea Doria quer ter alguém para conversar e os Domingos estão contra você. Eles irão usar o que você disse contra você.
'Hoje é Domingo.' Não sairei? Não viverei?
Viva! Saia! tome sorvete no Inverno no Domingo para desmotiva-los.
O Domingo não manda na gente.
E, assim, enquanto nos revoltamos contra os Domingos, seremos livres. Livres para justificar ficar embaixo da coberta sem ser obrigado. Por opção própria. Por acordar, almoçar e voltar a dormir. Por opção, dar banho no cão e lavar o carro. Por opção!
Daremos aos Domingos significado para podermos odiar um novo dia:
As Segundas.

sexta-feira

Julia, sabe o Sergio?

Julia, sabe o Sergio? Ontem ele morreu.
Fica calma. Tá tudo bem. Ele só morreu... Foi assim. Era meio-dia e ele tinha olhado pro relógio, a gente tava atravessando a rua, ele tirou o fone de ouvido e olhou para mim. Na hora, eu percebi. Ele tinha morrido.
Agora ele tá bem. Não chora não. Uma hora você também morre. Comigo? Você nem quer saber o que ele tava ouvindo? Foi na praia, eu tava correndo na praia. Vi um cachorro lindo passeando com uma senhora toda tatuada. Aí eu parei pra tomar meu fôlego e enquanto eu olhava entre meus pés me apoiando nos joelhos, morri ali. A gota que caia da testa era cada gota que morria de mim. Não. Não é assim. Eu acho. Lá no fundo, no fundo do poço ainda sempre resta um pouquinho.
Isso acontece com todo mundo... até gente nova. Meu sobrinho que brincava com vocês no quintal lá de casa. Isso, o loirinho. Morreu com oito anos. Ele simplesmente chegou em casa e o gato tinha sumido para nunca mais voltar. Ele morreu aos bocados. Mas logo depois, pegou o lápis de cera e coloriu um arco-íris na parede do corredor. Criança é bom. Morre que nem sente. Ou sente, mas o poço tá mais cheio.
Tá mais calma? Eu sabia. Existe um fogo que nunca se apaga. There is a light that never goes out. Era o que o Sergio tava ouvindo. Irônico, né? Sempre teve trilha sonora na vida de todo mundo vivo.Eu também ouvia. Eu tava correndo, lembra? Num vou falar tenho vergonha. Tenho vergonha, Julia. E morri faz pouco tempo. Não quero saber de contar qual música do Milton tava... Ai merda. Você vai usar isso contra mim. Você vai. Jura? Julia jura? Jura Julia? Tá. Saídas e Bandeiras.
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Já deu? Segura o riso um pouco. Grato.
Vem comer aqui em casa amanhã. Tem camarão. Trás cerveja. Julia. Todo mundo morre por dentro um dia. É só questão de tempo e escolha. Mas acontece com carinho e dói bastante pouquinho. É tipo aos puxadões e não parece da dor boa de cama de enfermo nem de trepada. Apenas dói.
Hora do almoço. Julia! Julia desliga não!
Sabe aquela flor que plantei no meu jardim? Acabou de nascer.

quarta-feira

Hasta Luego Siempre

"Dez pesetas e nunca mais você toca punheta, chingo!" Henry estava bebâdo, segurando uma garrafa de rum sentado na quina da murada da praia com uma sacola cheia de limões. A lua brilhava sobre as águas de Varadero, refletindo o brilho da lâmina que cortava mais um limão. Atrás de nós, o mural com Che sorrindo para uns companheiros sem camisa, cobria o pano de fundo da noite mais quente e tranquila que já tive em Havana. Uma foto tirada na mesma praia e com o "Motto" nacional: "Hasta la vitoria siempre". Mas alguém riscou "la vitoria" de Castro fora e pixaram trocando por Luego. Henry era Juan, mas se achava mais um desses Cubanos que foram influenciados por Miami, porque Miami é um país aparte aqui, e virou um dealerzinho de prazeres cubanos que até o nome que ele apresentava era diferente. Um verdadeiro marginal de péssima categoria. Conheci me oferecendo puta, charutos, água filtrada e benzida, uma criança cega, rum, e, um passeio no terreiro de Santeria. Tudo que ele é eu desprezo... Mas a Santeria era algo único e eu já tinha houvido falar sobre isso antes. É uma macumba bem mais jamaicana do que qualquer outra coisa. Um Vodu de terreiro de faca preta, chão triscado, galinha sem cabeça, sangue e rum. Muito ruim. Lá, eu fui acompanhando seu inglês horrível achando que eu era gringo. Não deixo de ser. Mas brasileiro nunca é gringo. Pelo menos, eu achava.
Me apresentou pra uma senhora gorda com olhos negros como a noite, seu olhar era de desolação, me olhava como se eu estivesse perdido.
"No hay nada como la incertidumbre del corazón."
"Que dizes?"
"Sus manos..."
Eu entreguei minhas mãos e entramos num descampado. Uma negra linda rodava banhada em sangue, os tambores batiam junto com o compasso do meu coração. Eu suava. Cuspiram Rum em mim. Fumaram envolta. E ela dançava. Eu não conseguia falar mais nada. E ai veio o velho Gerges. Eu não sabia que eu sabia quem ele era, mas eu sabia. O velho Gerges. Me disse apenas uma palavra. Beba. E como um comando mágico, eu bebi. Uma mistura negra. Um gosto de terra. E eu dançava. Rodopiava. Eu não era mais eu. Eu era gringo. Era Gerges. Tinha peitos, depois era negro. Tinha metros de altura e larguras de consciência. Eu suava. Eu suava. Engolia a língua da negra com seus tufos cacheadas e sua boca cor de romã. Eu rodava.
E acordava encostado na mureta. Ao lado desse traste de pessoa. Com uma negra deitada no meu colo olhando para meu corpo nu, com o olhar fixo no meu pau. 
"Dez pesetas e nunca mais você toca punheta, chingo!"
Eu tentava desviar meu olhar dela, dele, da praia, e, só pensava que se essa era a noite mais tranquila aqui, penso nas últimas 26 noites. E saber que vou embora em alguns dias. Será que eu volto? Então, cabe contar as noites com detalhes. Sem ter medo.
Mas já sei que sentirei falta daqui. Da negra muda deitada no meu colo. Do Salazar e sua comida excelente, o jogo de beisebol que se estendeu com a força nacional. A politica. O rosto do Guevara estampado em todos os lugares. O orgulho. Caró. Midas. 
Eu vou embora e leio ainda embriagado e enjoado:
Hasta Luego Siempre.

segunda-feira

Miguel, Eu Te Amo

Eu já te falei que eu tenho raiva dessa mulher. Eu já te falei que eu tenho raiva dessa mulher? Benjamin abre o meu armário, meu filho e pega a caixa de sapato que tá ali encima. Isso. Trás aqui. Tá vendo essa foto aqui. Essa foto foi tirada em oitenta e oito. Acho que noventa. Como seu pai tá bonito. Foi na hípica. Pegou bem os cavalos correndo no fundo. E esse bigode, meu deus. Olhando assim parece que é dos anos setenta, né? Mas o Miguel era meio clássico. Não é velho. É clássico. Bonito. Coisa que não se vê mais. Mas bem... eu tô junto com seu pai e ela tá na foto também. Ela não aparece, mas ela tá aí. Ela tá em cada movimento calculado que eu achava que era frio na barriga, cada gesto que era para mim, ele ensaiava para depois encenar com ela, cada dinheiro de aposta ganho, era comida em casa e presente pra ela. A gente chegou cedo e fomos comer algo, depois pegamos os bilhetes e encontramos com o seu tio e seu padrinho. Eles foram tomar uma cerveja, uns minutos antes dessa foto ele ficou apreensivo, ele parece sério nela, eu sempre achei que era para parecer mais bonito. Você tira uma foto? Pedi pra moça que passava. uma moça bonita de cabelos loiros até a cintura. Ela tirou e saiu andando. Ele ainda ficou um pouco sério ali. O que foi? Apostei demais. Acho que vou perder. Foi o que ele disse. Idiota. Como eu fui idiota. ‘Apostei demais...’ Hah. Naquele dia ganhamos o triplo da aposta. Requer muita prática para saber que está morto. E você não morre de uma vez. Vai morrendo aos pouquinhos. É como escrever. Uma carta de amor. Algo assim. Quando você tem tempo você escreve, quando você não tem saco você bebe. Desculpa, meu filho, mas é a verdade. Eu queria que se fodesse toda a comida que ele colocava em casa. Eu quero os presentes dela. O que ele comprava? Será que ela se pavoneava toda com roupas minúsculas e depois ia dar pra ele ou eles andavam no carro do ano que seu pai trocava sempre desfilando com sua puta troféu no centro? Ela andava com nossos amigos. Será que fazia amor melhor que... Fazer amor. Olha a piada aí. Eu digo fazer amor. Você, por favor, não ri de mim. Trocava de carro todo ano para tirar o cheiro de puta, isso sim. ‘Eu sou um apaixonado por carros’. Burra. No fim de semana, queria todo mundo junto. Eu, você, seus sobrinhos. Gostava da casa cheia. Foi isso que nunca suspeitei. Nunca no fim de semana. Deveria ser na hora do almoço da firma. Nas noites, de trabalho e plantão. Plantão de emergência, como ele dizia. Quase toda semana. Cinco anos na firma, ele dizia que era de confiança e era difícil deixar outros cuidarem do sistema. Burra. Nunca no fim de semana, nem sequer uma vez. Adorava cozinhar pra mim, para vocês. Acordava cedo no domingo e inventava algo. Colocava Cartola pra tocar. Lembra o dia do Leitão. Ele chegou sexta de noite com um porco! Imagina! Mas Miguel onde a gente vai colocar isso? Não tem nem como fazer. ‘Deixa comigo.’ Quando seu pai falava ‘deixa comigo’, nossa... Bom. Miguel pegou toda a lenha guardada, foi no quintal, lembra? Sim. Você acordando gritando, tem um porco sendo assado! Eu ria. Todos os meninos correndo brincando de índio em volta do fogo. E o bichão no espeto. Cerveja demais. Todo mundo desceu. Do rio. De Petrópolis. Desce ou sobe? Não sei. Todo mundo veio. De repente, foi uma festa. Foi bom. Você falava, pode ser meu aniversário hoje? Seu pai te respondeu, Não. É o nosso. Aí caiu a ficha. Não tinha percebido. Não estava entendendo nada. Seu pai parou a música. Noel. Ajoelhou no meio de todo mundo. Marta, obrigado por casar comigo e ser a mulher da minha vida. Casa comigo, de novo? Era nosso aniversário e eu casei de novo na mesma semana. Ele tinha arranjado tudo. Tudo em pequenas coisas. Todo mundo sabia. Seu padrinho, bêbado, veio me cumprimentar. ‘Marta, não importa o que aconteça, o Miguel faz tudo pensando em você.’ Isso ficou na minha cabeça para sempre. Foi lindo. Me senti uma menina. Seu pai era bom pra mim. Uma semana depois, Campos do Jordão, na mesa de jantar, ele sorrindo, tomando vinho, seu bigode cheio de vinho, ele pousa a taça. Fica sério. Contrai o rosto e cai no chão. Se contorcendo com a mão no peito. Fulminante. Ali mesmo. Você ficou na casa do seu tio. E aí, teve o enterro.
Eu perto do caixão, pensando que tínhamos acabado de casar, começa um burburinho, eu olho pra trás e vejo seu tio. Apartando uma mulher alta. Nunca tinha visto. Me chamando. Eu sou a outra, Marta! Eu gelei. Naquele momento, eu percebi tudo, mas parece que fica tudo enevoado. Eu olhava pro seu pai, distinto, de terno.  ‘Marta, eu preciso falar com você! Me solta Rubens!’ Ela empurrou seu padrinho. Veio na minha direção. E me entregou um envelope. Ela chorava e nem olhou pro caixão. Óculos escuro, de luto, mas não olhou pro caixão. Se dei uma porrada nela? Benjamin, não sabia o que fazer. “Qu-quem é você?” “Eu sou ela. Desculpa. Não foi por mal. A gente fez um pacto.” E ela se foi. Tinha uma criança perto do Rubens. Ela puxou o menino. “Vem, Miguel.” E se foi pra dentro de um táxi. Todo mundo começou a brigar. Você veio e me abraçou. “Mãe, eu tô aqui.” E ficou lá abraçado á mim. Eu olhava pra ele sentada. E o tempo parou, não chorava, não soluçava, nada me doía, tudo era indiferença. Eu nunca mais chorei. Fiquei parada um bom tempo dentro de casa, sentia o cheiro de seu pai, da roupa, dormia do lado dele da cama. Mas não chorava. Fiquei com raiva durante muito tempo. Aí. Essa foto. Eu descobri o envelope faz uns meses. Eu sabia o que era. Minha mão tremia tanto. Quando abri, tinha um bilhete e uma foto. A foto desse dia na hípica. Atrás escrito, lê aí.

- Você também estava lá. Apertando o flash. M.

E o bilhete, é esse aqui, pega minha carteira.
Isso aqui tava escrito: POR EXÚ. A PADILHA ME DEU ELE.
Aí, eu sosseguei minha raiva dele. E virou dela. Mas não de ruim. De que ela queria e ele não deu. Ele deu pra mim. Queria ser, mas não foi. É boa essa sensação. Esse tempo todo. Era por mim. Aí eu consegui chorar. Consegui viver me amando. Sabe o que mais eu pen... Benjamin! Corre lá no portão! Seu padrinho chegou, pega a chave. Deixa guardar isso tudo. Vai.
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Miguel, Eu te amo.

domingo

O VENTO




“A casa era de um vermelho opaco já repartido pelo tempo. Ele ficou na beira da varanda olhando para o campo bem além. Ela tocou nele. Ele ia embora pra nunca mais...”
Charles Mingus, Chet Baker, Ella, Etta, todos eles começam a tocar na minha cabeça ao mesmo tempo. Um caminhão solitário trazendo bobinas de jatos cruza a estrada em frente de casa. Um cavalo selvagem relincha e são duas da manhã e o sol refletido brilha por entre as nuvens grossas. A chuva abranda nesse momento. O frio se assentou e eu só ouço o barulho dos meus dedos percorrendo o corpo do teclado, o gosto do café puro, o som do piano de algum jazzista que perdeu os dentes numa briga de bar e você deitada. Em silêncio. Com o braço por cima do cobertor. Suavemente respira e só sei que não está morta pelo leve balançar do seu cabelo que balança na menina do teu beiço. Bem leve. Bem carnudo. Onde jaz uma mordida da ferida que a tua distância me causa. Que me deixa ali. Tarde. Sem dormir. Rindo para as paredes sozinhas quando você desaba. Depois do jantar de peixes suculentos de uma providência japonesa, sem shoyo e sem hashi. Que pra você é pauzinho. Da sobremesa de flocos nos seus seios, dos odores de nossas axilas que sorvemos enquanto tu te sentas como num trono feito de tronco e carne. Das minhas mãos, pâtisserie na massa orgânica e o recheio. O condensado no seu corpo. E eis aqui. Morta. Desfalecida. Como um anjo a espera de um sinal para voltar pra casa. Não volta. Fica. Eu te carrego de volta pra vida real quando, eu contigo, acabar. Acabar de pensar em te ver. Acabar com o café carregado de promessa. Com o blues cheio de notas de tristeza mesmo com meu sorriso brando no rosto de quem te olha e termina as linhas sobre o corpo do teclado. Fica. Acorda. Descobre teu corpo e minha vida.
Nada pode ficar estático. Nada pode ficar assim. Tu te recobras de lembrar e mudar a posição. Cansou da posição fetal. Vai pro colo do diabo que passa a mão nos seus cabelos. Enquanto joga comigo mentalmente, os discos arranhados do Money Jungle. Eu queria que você na virada olhasse pra mim por aqueles segundos. Aí nada fica no lugar. Nem os brincos encima do sofá. Teu celular começará a tocar. As luzes piscarão. Nem meu coração vai parar. Nem minha alma. O Diabo inventando outra língua pra gente.
Derramando o café, a bebida toda no teclado. O resto da minha verdade.
Onde bem eu escrevia, “Olha para mim que eu viro vento.”
Quem colocou essa mulher na minha lista de músicas favoritas?
“Ela tocou nele. Ele ia embora pra nunca mais.”
“É abril. A gente se vê.”
“Pelo menos olha pra mim.”
“Se eu olhar vou sentir um sopro de saudade.”
“Então...”
“O que?”
“Olha para mim que eu viro vento.”

sexta-feira

Carta a um canalha


Os canalhas estão sempre por aí entre os malandros.
Eles se vestem de galinhas pretas em macumba para serem oferenda, dirigem entre os vendedores de bala com um sorriso de quem mijou e não deu descarga. Usam roupas chiques e visitam a favela como se fosse parte dela. Processam ciclistas que andam felizes com seus fones de ouvido. É um insulto ser feliz para um canalha de gravata. Um dano moral. Quase leviano. E eis então que o canalha resolve encontrar uma farda e proteger seus canalhas da população. Ser canalha é um ato digno quando é dito pela mulher que ama. Que chama de canalha com olhar de ‘me come’. Ser canalha assim é amar assado. Mas, há, o canalha de olhar miúdo e sorriso debochado. Que não abre os dentes quando lhe fala e sibila depois de dar um gole no seu uísque. Que é canalha bebendo champagne enquanto seu marido casa canalhas apertando suas mãos e acariciando seus bolsos. Canalhas que pedem caipirinha sem bagaço. Que surgem com o cheiro da manhã do diesel. Eles são o diesel. O enxofre. O negrelho. O pixe. Nós somos o dendê. A gente sabe o que é quente e frio. E sabemos sobre catracas e rituais á fundo. Nós somos a simpatia. Nós completamos a água porque o canalha fornece pelo cano. Nós temos o chinelo de dedo. Você tem a burocracia. Nós somos a lei da rua, da praia, do carioca. A mulher interesseira reconhece o canalha de longe. Foge porque não se pode sobreviver na mesma Savannah. Não se pode desviar do tiro se o canalha aponta pra ti e que mil canalhas caiam á sua direita e a sua esquerda se este canalha for punido. Nunca!
Não importa. Quantos homens de bem existam, há de haver canalhas para se equiparar. Mas saiba, não há canalhas nessa equação o suficiente para destruir a moral e os bons costumes dos malandros. E nós estamos por todos os lados nesse inverno. Durmam acolhidos, canalhas! Se enrolem nos seus quatro mil fios egípcios.  Aqui fora, na noite fria, aquecemos nossos corpos com as chamas dos pneus dos seus carros. Nos cobriremos com as roupas “doadas” por seus companheiros canalhas. Estamos aqui até o galo despertar e seus vizinhos,  cansarem da sua presença porque também são malandros. E homens de bem. Até quando as luzes de todos os prédios piscarem quando teu carro com placa de canalha passar. Nós não queremos que você tenha paz. Nós queremos que você não se esqueça de que você é. Até teus filhos perguntarem se você é um canalha ditador?
Você é um canalha ditador?
Não. Você é apenas um canalha. Não tem capacidade de ser ditador.

E, com certeza, nunca será malandro.

Dia 91 - Ata-me

Suas mãos engalfinhavam o rosto assustado da menina. Seus dedos longos entravam nos cabelos dessa garota.
Ele olhava bem no fundo dos olhos e sorria com sarcasmo. Ela chorava.
"Não lute. Você sabe disso."
Ela segurava o choro e assentia com a cabeça que mais parecia um espasmo ou um calafrio. Esticou uma das mãos e apanhou um objeto.
"Abra a boca."
Ela abre. Ele coloca delicadamente um objeto redondo vermelho com tiras. A bola entra toda na boca da menina. Amarra bem apertado. Ao se afastar você conseguia ver o quadro inteiro. A cadeira de madeira com treliças vitorianas mantinha a menina de cabelos pretos imóvel. Suas mãos cruzavam como se abraçassem pelas costas e um desenho de umas seis ou sete voltas de cordas mantinha eles unidos na coluna central do encosto. Seus pés separados estavam amarrados na cadeira.
Á sua frente uma outra cadeira do mesmo estilo se posicionava á poucos metros. Ela estava assustada. E nua. Seu corpo estava eriçado e ela estava úmida. Muito visível. Ele se sentou. Estava vestido de calças sociais e camisa de botão, bem alinhado que quase não condizia com a cara de marginal, de folha molhada ao vento. De jornal velho amarelado. Não condizia com a abertura de sua braguilha e colocando o pau pra fora já duro. Ela suspirou. Ele se ajeita na cadeira enquanto o pau encara a menina. Retira do bolso um controle e aponta para um som. Ele faz seus barulhos de máquinas e pluga algo.
Uma voz rouca, parecida com a do homem.
Ele saca uma arma da cintura.
Ela olha atônita.
Ele Começa a se masturbar.
"Tá gravando? Tá... acho que tá."
A arma é uma 45 preta. Auto. Ele aponta para a direção dela. Com um braço em riste ele começa o movimento com a outra mão. a gravação inicia.
"Você está linda assim. Eu tenho planejado te ver assim desde sempre. Desde quando eu quis te comer pela primeira vez. Lembra? Lembra quando você ajoelhou no fundo do bar e pagou um boquete pra mim? Lembra? Lembra que a porra desceu pela sua cara e o que você tomou, você ficou me beijando depois? Eu adorei aquilo. Ficou com gosto de porra a noite toda. Nem quis beber mais.
Um barulho de microfonia chia um pouco e se regula.
"Você me ligou para dizer que estava se masturbando pensando em mim. 'Manda em mim', você disse. 'Manda em mim, filho da puta'. Eu mandei você enfiar o pepino na sua buceta e ir para o trabalho com ele. Depois você fez uma salada.
Ela geme e fecha um poucos os olhos como se visse a cena.
"Vinte e quatro horas sem poder comer. Te deixei tremendo de jejum. Só podendo tomar leite. No fim, quando te alimentei. Uma hora antes soquei a rola na sua garganta e fiz você gorfar. Um rio puro e esbranquiçado."
A glande vermelha e quente é apertada com todos os dedos envolta do membro.
"Nossos mijos um para o outro. Seu nome na coleira. As fotos na parede da sala do seu chicote. Seu lugar de dormir quando se comporta mal. Os plugs que aumentavam e a sua voz dizendo bom dia."
O batimento cardíaco aumenta. Ele toca. Ela sua. Um mel em gota longa desce pelas pernas dela, toca a cadeira e escorre entre a palha do assento.
"A velas derretidas nos seus seios. Eu comendo você de quatro, revezando do cu para a boca. Da boca para a buceta e voltando. Tudo que nos fizemos. Tudo que criamos juntos. A gente não se saciava. Até esgotar as possibilidades. Especialmente, com todos os fetiches."
Ele se controla. Seu braço treme com o peso da arma.
"Nós fizemos tudo e hoje eu quis fazer essa surpresa. O cheiro de acácias na casa. Eu com a roupa que você acha lindo. Você nua e amarrada e amordaçada. Tudo que a gente um dia sonhou.'Tem que ser surpresa'. Isso é para você. Para você gozar olhando. Eu sei que você adora me ver se masturbando. Então, eu quero que você não tire os olhos de mim. Eu vou te dar porra. Eu vou gozar como nunca gozei antes pra ti. Você não queria ser surpreendida, minha putinha? Então, aproveita."
Ele toca mais rápido. Ela está toda molhada e suada. Não para de pingar e não se controla. Geme e se derrete dando umas tremidas com o corpo, mas não como quem quer se soltar.Sua punheta é violenta e ele não consegue parar de olhar para ela. O braço estendido dói. Mas ele aguenta. è para ela. É tudo para ela. Ele jorra no próprio peito, na calça, o gozo esvai-se em leite e odores. Fecha os olhos. Todo ele é uma massa uniforme de nada. Seu braço estendido treme. Abre os olhos. Encara ela e sorri.
"Surpresa."
Vira a arma para sua própria cabeça e atira. Seus olhos reviram. Ele ainda tremia e gozava. Ela arfa algo. Seu corpo se dobra perante o seu pau. A cabeça em direção ao tronco. Ela encara a cena. Tenta se soltar. Não. Tenta parar de se vir. De gozar. Não consegue. Continua olhando.
...
Ainda gozou três vezes antes da polícia a soltar.

quinta-feira

Dia 90 - Balada


Hoje meu dia foi memorável. Foi talvez um dos meus melhores dias.
Foi aquele tipo de dia que acontece algo inacreditável.
Você que está lendo isso agora, pare e reflita um pouco em algum dia que teve um acontecimento único e maravilhoso.
Tire alguns minutos. O meu foi você. Você mesmo que está lendo isso.
Quando eu não te vejo, quando eu não te tenho e quando o tempo tá fechado e frio que ficamos tristes ou muito quente e abafado que não podemos pensar.
Eu sempre penso em você. Na verdade, meu dia é ótimo quando você vem me trazer um doce.
Ou me beijar e dizer seu dia.
Se o carro parou numa batida. Se o preço da festa tá muito caro. Quando eu faço o seu prato preferido. Ou quando você deita no meu peito. Calmamente, se leva pro mundo dos sonhos.
Sua pequena cabeça pesa e eu sinto o cheiro dos seus cabelos, e, meu hábito de passar meus dedos por entre eles até sua nuca. Cafuné de quem não precisa de cafuné porque já dormiu.
E seu braço deitado no meu colo. Seu leve respirar de quem dorme como um infante protegido por qualquer força superior seja ela meramente conhecida como Deus.
E os dias que você não vem. Esses são os piores porque eu sinto falta de você.
É. Ás vezes, eu sinto falta de você.
Então eu pego sempre um pedaço de ti.
Um pouco de cheiro. um tanto de pêlo. Um bocado de gosto e guardo tudo.
Pra quando eu sentir saudades eu desguardo e abro pra amar você um pouco mais.
Você é minha só por deixar ser, então, seja minha por querer.
Que eu quero sempre mais e mais você junto e próximo.
Mesmo não sabendo fritar um ovo. Com a paciência única de quem não tem paciência no trânsito. Preferindo a festa particular nossa.
Sempre babando no meu peito e disfarçando.
Tudo isso é memorável. Você é memorável. Meus melhores dias são você.

terça-feira

Dia 87 - O Velho

Quando a luz voltou, seus olhos estavam meios cegos pela claridade e na sua mão esquerda ele sentia uma bola pesada de lona, como uma bola do tamanho de um punho dessas de velhas que usam para crochê e que gatos teimam em se enrolar.
O frio vinha assobiando por baixo da porta da entrada de casa...
Da janela com os braços meio fechados, pelo vime, ainda se via lá fora as luzes do fim do dia que se esvaia...
O som de alguns cães brincavam na rua. As crianças se endiabravam com o jeito engraçado de pular e morder dos vira-latas que babavam.
Cós de calças rasgadas e blusas sujas de suor. 
E o velho lá.
Os cabelos vermelhos das moças jovens pegavam carona com os abraços dos namorados, era o mesmo cheiro das acácias do jardim.
O café já bulia quente no fogo e jé empesteava a casa.
E o velho lá.
Seu coração calmamente foi se fechando, como uma craca que se finalmente assenta numa carcaça de um navio que chegou ao fim de navegar e ali, fica. Parado á beira do mar. A navegar com o solavanco. A solavancar o navegar.
Como um totem de um bastião negro o velho ficava com sua barba branca parado.
Sua mão calmamente se abre e a bola de lona rola. Um pequeno ser de petas negras e olhar manso vem miando pelo chão carmim de azulejos. Ariarranha o novelo olhando para cima. 
Se para um pouco. 
O café apita.
A acácia cheira.
os cães rosnam.
As crianças riem.
O velho lá.
Dorme.

Dia 86 - Vai ter você


Vai ter tempo de esperar e tempo de chegada.
Vai ter gente sofrendo por maldade alheia e música tocando em todos os corredores.
Vai ter pessoas que irão sorrir por ouvir saber que tu vai chegar e que eu vou partir pra te ver. Vai ter época de vontade de sentir saudades e saudades sentidas.
Vai ter teu cheiro no travesseiro e um sorriso no canto da boca só por sentir você por perto, dando a volta na cama e vindo me agarrar assim que deito.
Vai ter estranhamento de acordar sozinho e desacostumar que nem mil punhetas irão resgatar a tua presença, branquela.
 Um dia, acordar e ter você na cozinha fazendo café e sorrindo dando bom dia.
O bafinho de leite de bicho novo no pasto.
E o sol quente dizendo praia ou cama pra passar um domingo de preguiça.
O cansaço do fim do dia que só o telefonema com a voz do outro lado acalma e faz passar toda tensão. Vai ter amigos aposentando as tentativas de entender nossa vida.
Vai ter família pedindo pra voltar pro lar e sair do cativeiro.
Vai ter você.
Vai ter eu. 

Dia 85 - O que dói?



Quando eu morri também não doeu nada. Sério. Acordei nove dias depois do coma sem sentir nada.
Sem sequelas, sem dor. Pra dizer a verdade, bicho. A minha mão aqui. Essa. A direita. Doeu demais.
Mas depois veio o apagão. Ficando tudo preto. E eu fui embora.
Aqui na testa, meu cérebro saiu tudinho. Senti a massa Cêfalica saindo... é isso né? Cêfalica.
A porrada foi tanta. Eu tava onde tu tá ai, nego. Sentado no banco do passageiro.
Veio a caminhonete de frente. Era um Reboque. A luz cegou a gente, deu pra dar uma guinada pro lado e desviar, mas ela trazia um motor de carro.
Acho que era de fusca. Porque era muito grande. E você sabe como é esses monstros fabricados antigamente. Coisa de Primazia e gigantismo. O motor se soltou das correntes e veio voando no nosso carro. Quebrou capô acertou o vidro em cheio entrando na cabine. Quebrei todos os dentes da frente.
Cuspi dente, sangue, senti aquele gosto na boca, na garganta. Sabe aquele zunido. Foi ai que tentei olhar pro lado mas não conseguia. Começou a escurecer, escurecer...
Senti a minha testa, tinha um rombo aqui. Ah, a foto do acidente tai no porta-luva. Abre ai. Oh, tá vendo. Foi bem aqui que entrou o motor e fudeu comigo. Minha mão foi prensada e foi essa dor que senti. Tentei olhar pro lado. Só vi a mão dela tentando segurar a minha. O velório foi feito sem mim. Enterro sem mim. Eu acordei e não tinha mais nada. Tristeza? Dá no começo. Um vazio. O que dói mesmo não é perder a pessoa, eu nem chorei.
Mas o que dói é não me lembrar de como ela era. Isso dói.

sexta-feira

Dia 83 - Três cadelas já foram atropeladas atravessando a rua



A mulher da recepção improvisada que eu acabo de conhecer tá tentando me convencer em adotar um filhote de cachorro. Eu só vim me inscrever na academia. Parado por mais de anos com a desculpa de que meu joelho é fudido do lado direito. Mas, na verdade, a culpa é do joelho, da cerveja, das noitadas, da minha mania de achar que o melhor exercício é sexo e tentar fazer ele na maior quantidade possível quando namoro. Um dos motivos também por não fazer academia. Ela me fala da casa em frente à academia que a cadela deu luz á oito filhotes, mas já morreram três que fugiram da casa. Por algum motivo, eu ouço a história toda sem quere interromper ela. Não tô querendo ser simpático só não tô querendo ser chato. Eu fico esperando ela falar e terminar, olhando de tempos em tempos pra casa, pra bunda de uma negra que só tem bunda e toda ela é feia malhando, e, aos comentários que ela tece. Na verdade, eu até pegaria um filhote, mas tenho um cachorro em casa. Ela diz que já tem cinco em casa. O meu é um Golden Retriever. Todos dela são vira-latas. Por algum motivo, eu me sinto esnobe e quase na obrigação de pegar um vira-lata, da mesma forma, que quando se está no metrô e você tem de se levantar para dar o lugar para uma idosa mesmo que você tenha passado um dia estressante e cansativo. Mas eu escolho ficar sentado no banco e digo que realmente eu não posso pegar com a vaga desculpa de que minha mãe pode me matar. O que pode ou não ser verdade. Mas, finalmente ela passa o meu cartão na máquina, eu escolho o horário mais barato para usar a academia. Um tal de Marcelo é um dos personal trainers da academia e ele me mostra a modesta operação... Os instrumentos pesados ficam numa sala direita e os aeróbicos misturando com alguns outros tantos de musculação ficam no esquerdo onde é a entrada. Tem uma música dessas de academia e descubro que tá tendo aula de spinning no segundo andar. Mal quero entrar para não causar nenhum incômodo e também por vergonha. Explico calmamente sobre meu joelho enquanto ele mostra o resto da academia que é toda acolchoada com espumas que formam um grande quebra-cabeça azul. Subo e a negona da bunda tamanho carro forte tá fazendo exercícios de bunda. Resolvemos intuitivamente que ali é o melhor lugar para terminar e continuar o papo. Ele ouve e marcamos a primeira sessão de manhã.
Eu dou boa sorte pra dona dos cachorros e doadora estimulada. Saio com uma leve impressão de que ela é simpática demais pelo fato de querer ser simpática ou que só queria que eu tentasse levar um. Dentro da minha cabeça, já tinha desistido antes mesmo dela tocar no assunto. Eu voltei pra cá para descarregar malas, voltei pra um lugar bucólico, onde nada acontece e não vou agregar nada mais comigo daquilo que já tenho. Não sei o que posso fazer. Mas vou continuar...

terça-feira

Dia 81 - Sem Você




Sim, eu vou bem. Muito obrigado por me fazer tão bem. Nunca um abandono me proporcionou tanta mudança.
Mesmo que favorável, só vi no final.
Sem a tua presença emagreci mais do que qualquer dieta convencional, não que eu quisesse. Por isso, não precisa essas caras de espanto ao me ver sorrindo e feliz. Ando bem sem você, obrigado. Esse sorriso é a única defesa que eu tenho depois de passar noites á fio preso no meu pijama mal-lavado dentro do meu quarto sem sair. Sendo iluminado pelas fotos eletrônicas da tua felicidade. Vendo as noites de bebedeira que tu compartilhava com qualquer um, eu compartilhava com a minha solidão. Criei um amigo imaginário além daqueles que tínhamos inventado. Era o Señor Jack, ele vivia numa garrafa e no meio da madruga estava dentro de mim e ao cansar da solidão aqui dentro, se mudava para o fundo da privada. Mais nobre porcelana do que meu estômago frio.
Olhar frio? Não. Fico feliz que você já não saiba mais ler meus traços. Foram dois meses me treinando para reerguer sozinho. Sofrer de amor é como um hospital de guerra. Você espera que alguém te dê alta e você volte pro lar, mas ali é teu lar. Você espera boas notícias. Que volte a enxergar. Que teu membro amputado volte pulando para o seu braço divorciado. Por isso, esse meu olhar difícil de descrever. Eu passei pela guerra. E sobrevivi. Esse meu olhar é só carinho.
Porque tu tá engolindo seco? Toma um gole. De cianureto. Não quero que tu morra. Pessoas como você são imortais. Vão viver, de verdade, bem lá no fundo no fundo do poço que é o coração. Na parte do sótão que tu nunca abre porque sabe que é cheio de tralha e poeira e coisas peçonhentas. Mas também é um lugar mágico e misterioso. Tu revisita de tempos em tempos só pra acreditar que passou por aquilo. O sótão te ensina uma lição. Coração bate forte essas horas. o meu andou descompassado por você, sem saber que horas era, onde você estava, que eu ligava e tu atendia com enfadonho e eu desatava a chorar quietinho. Que meu orgulho me impediu de te dizer o que queria dizer. Agora digo por ter orgulho á você.
Por ter feito eu passar pelo que passei, te agradeço de paixão.
Sem você, não saberia que a menina de cabelos coloridos e tatuagens sabe me dar e se dar mais do que você.
Mas saiba, sem nenhuma ofensa e saudade, sem você eu passo bem demais.
Obrigado, amor.

segunda-feira

Dia 80 - Temporada de caça


Temporada de caça de Baleias. De outras mulheres. De pequenos momentos onde todo mundo deve se preparar.
Todo mundo com um pouco de cor, um pouco de casa aberta também, e, super bronzeados com cara de pantone. Ninguém com aparência de quem ficou um inverno inteiro de frente pro computador, ninguém saindo com os cachorros, se exibindo com orgulho na praia, brincando de ser musculoso.
E os Domingos que eram vazios, agora eram mais calmos do que nunca. Caminhando a beira da praia, deixando o sol cair lá ao fundo sob seus olhos, e aquele som de alguma guitarra distorcida num quiosque de madeira copiando casas de honolulu, um metal de alguma banda local distoando de algum lugar, aquele maluco com jaqueta cheia de bandeiras e selos de bandas que ninguém nunca ouviu falar, mas eles sim. E tu entra, de chinelo, shorts, camisa branca. E o som toca, como se amaldiçoasse o dia que tinah nascido, e, você conversa, não bebe nada e encara aquela mina de cabelos laranjas e espartilhos roxo, olhos verdes postiços e lindos. Toda ela, uma amálgama de cores e desejos e seios fartos. Ela foge completamente do que deveria ser procurado no verão. Ela é outro lado. Mas, curiosamente, ela também tem a cor quase como se contornassem um breve pincel de quem foi colorido pelo sol. E mais nada.  Toda ela tem curvas. Não é a magricela de academia nem a sarada de qualquer filme desses que você vê para gastar energia e pegar no sono. Não. Ela tem curvas, ela tem tudo. Ela é maciamente necessária de ser observada e adoravelmente interessante. E, ela conversa bem, ela é inteligente, ela é tudo e você esquece do som, e encara as ondas da mureta do quiosque havaiano. Maré baixa, os insetos voam pelas luzes, a noite nem é tão quente assim. O melhor é saber que tudo aqui tem seu passo exato. Que não há pressa de tentar investir na garota de espartilho. Que tudo aqui quer me revelar. Porque ninguém sabe o que acontece. Porque não há novidades. É verão e eu entendo o sentimento de algumas pessoas se ainda elas estão tristes.