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Os dias são contados. O Tempo passa. E se caminha cada vez mais como se fosse um diário de um eunuco.

terça-feira

Dia 86 - Vai ter você


Vai ter tempo de esperar e tempo de chegada.
Vai ter gente sofrendo por maldade alheia e música tocando em todos os corredores.
Vai ter pessoas que irão sorrir por ouvir saber que tu vai chegar e que eu vou partir pra te ver. Vai ter época de vontade de sentir saudades e saudades sentidas.
Vai ter teu cheiro no travesseiro e um sorriso no canto da boca só por sentir você por perto, dando a volta na cama e vindo me agarrar assim que deito.
Vai ter estranhamento de acordar sozinho e desacostumar que nem mil punhetas irão resgatar a tua presença, branquela.
 Um dia, acordar e ter você na cozinha fazendo café e sorrindo dando bom dia.
O bafinho de leite de bicho novo no pasto.
E o sol quente dizendo praia ou cama pra passar um domingo de preguiça.
O cansaço do fim do dia que só o telefonema com a voz do outro lado acalma e faz passar toda tensão. Vai ter amigos aposentando as tentativas de entender nossa vida.
Vai ter família pedindo pra voltar pro lar e sair do cativeiro.
Vai ter você.
Vai ter eu. 

Dia 85 - O que dói?



Quando eu morri também não doeu nada. Sério. Acordei nove dias depois do coma sem sentir nada.
Sem sequelas, sem dor. Pra dizer a verdade, bicho. A minha mão aqui. Essa. A direita. Doeu demais.
Mas depois veio o apagão. Ficando tudo preto. E eu fui embora.
Aqui na testa, meu cérebro saiu tudinho. Senti a massa Cêfalica saindo... é isso né? Cêfalica.
A porrada foi tanta. Eu tava onde tu tá ai, nego. Sentado no banco do passageiro.
Veio a caminhonete de frente. Era um Reboque. A luz cegou a gente, deu pra dar uma guinada pro lado e desviar, mas ela trazia um motor de carro.
Acho que era de fusca. Porque era muito grande. E você sabe como é esses monstros fabricados antigamente. Coisa de Primazia e gigantismo. O motor se soltou das correntes e veio voando no nosso carro. Quebrou capô acertou o vidro em cheio entrando na cabine. Quebrei todos os dentes da frente.
Cuspi dente, sangue, senti aquele gosto na boca, na garganta. Sabe aquele zunido. Foi ai que tentei olhar pro lado mas não conseguia. Começou a escurecer, escurecer...
Senti a minha testa, tinha um rombo aqui. Ah, a foto do acidente tai no porta-luva. Abre ai. Oh, tá vendo. Foi bem aqui que entrou o motor e fudeu comigo. Minha mão foi prensada e foi essa dor que senti. Tentei olhar pro lado. Só vi a mão dela tentando segurar a minha. O velório foi feito sem mim. Enterro sem mim. Eu acordei e não tinha mais nada. Tristeza? Dá no começo. Um vazio. O que dói mesmo não é perder a pessoa, eu nem chorei.
Mas o que dói é não me lembrar de como ela era. Isso dói.

sexta-feira

Dia 83 - Três cadelas já foram atropeladas atravessando a rua



A mulher da recepção improvisada que eu acabo de conhecer tá tentando me convencer em adotar um filhote de cachorro. Eu só vim me inscrever na academia. Parado por mais de anos com a desculpa de que meu joelho é fudido do lado direito. Mas, na verdade, a culpa é do joelho, da cerveja, das noitadas, da minha mania de achar que o melhor exercício é sexo e tentar fazer ele na maior quantidade possível quando namoro. Um dos motivos também por não fazer academia. Ela me fala da casa em frente à academia que a cadela deu luz á oito filhotes, mas já morreram três que fugiram da casa. Por algum motivo, eu ouço a história toda sem quere interromper ela. Não tô querendo ser simpático só não tô querendo ser chato. Eu fico esperando ela falar e terminar, olhando de tempos em tempos pra casa, pra bunda de uma negra que só tem bunda e toda ela é feia malhando, e, aos comentários que ela tece. Na verdade, eu até pegaria um filhote, mas tenho um cachorro em casa. Ela diz que já tem cinco em casa. O meu é um Golden Retriever. Todos dela são vira-latas. Por algum motivo, eu me sinto esnobe e quase na obrigação de pegar um vira-lata, da mesma forma, que quando se está no metrô e você tem de se levantar para dar o lugar para uma idosa mesmo que você tenha passado um dia estressante e cansativo. Mas eu escolho ficar sentado no banco e digo que realmente eu não posso pegar com a vaga desculpa de que minha mãe pode me matar. O que pode ou não ser verdade. Mas, finalmente ela passa o meu cartão na máquina, eu escolho o horário mais barato para usar a academia. Um tal de Marcelo é um dos personal trainers da academia e ele me mostra a modesta operação... Os instrumentos pesados ficam numa sala direita e os aeróbicos misturando com alguns outros tantos de musculação ficam no esquerdo onde é a entrada. Tem uma música dessas de academia e descubro que tá tendo aula de spinning no segundo andar. Mal quero entrar para não causar nenhum incômodo e também por vergonha. Explico calmamente sobre meu joelho enquanto ele mostra o resto da academia que é toda acolchoada com espumas que formam um grande quebra-cabeça azul. Subo e a negona da bunda tamanho carro forte tá fazendo exercícios de bunda. Resolvemos intuitivamente que ali é o melhor lugar para terminar e continuar o papo. Ele ouve e marcamos a primeira sessão de manhã.
Eu dou boa sorte pra dona dos cachorros e doadora estimulada. Saio com uma leve impressão de que ela é simpática demais pelo fato de querer ser simpática ou que só queria que eu tentasse levar um. Dentro da minha cabeça, já tinha desistido antes mesmo dela tocar no assunto. Eu voltei pra cá para descarregar malas, voltei pra um lugar bucólico, onde nada acontece e não vou agregar nada mais comigo daquilo que já tenho. Não sei o que posso fazer. Mas vou continuar...

terça-feira

Dia 81 - Sem Você




Sim, eu vou bem. Muito obrigado por me fazer tão bem. Nunca um abandono me proporcionou tanta mudança.
Mesmo que favorável, só vi no final.
Sem a tua presença emagreci mais do que qualquer dieta convencional, não que eu quisesse. Por isso, não precisa essas caras de espanto ao me ver sorrindo e feliz. Ando bem sem você, obrigado. Esse sorriso é a única defesa que eu tenho depois de passar noites á fio preso no meu pijama mal-lavado dentro do meu quarto sem sair. Sendo iluminado pelas fotos eletrônicas da tua felicidade. Vendo as noites de bebedeira que tu compartilhava com qualquer um, eu compartilhava com a minha solidão. Criei um amigo imaginário além daqueles que tínhamos inventado. Era o Señor Jack, ele vivia numa garrafa e no meio da madruga estava dentro de mim e ao cansar da solidão aqui dentro, se mudava para o fundo da privada. Mais nobre porcelana do que meu estômago frio.
Olhar frio? Não. Fico feliz que você já não saiba mais ler meus traços. Foram dois meses me treinando para reerguer sozinho. Sofrer de amor é como um hospital de guerra. Você espera que alguém te dê alta e você volte pro lar, mas ali é teu lar. Você espera boas notícias. Que volte a enxergar. Que teu membro amputado volte pulando para o seu braço divorciado. Por isso, esse meu olhar difícil de descrever. Eu passei pela guerra. E sobrevivi. Esse meu olhar é só carinho.
Porque tu tá engolindo seco? Toma um gole. De cianureto. Não quero que tu morra. Pessoas como você são imortais. Vão viver, de verdade, bem lá no fundo no fundo do poço que é o coração. Na parte do sótão que tu nunca abre porque sabe que é cheio de tralha e poeira e coisas peçonhentas. Mas também é um lugar mágico e misterioso. Tu revisita de tempos em tempos só pra acreditar que passou por aquilo. O sótão te ensina uma lição. Coração bate forte essas horas. o meu andou descompassado por você, sem saber que horas era, onde você estava, que eu ligava e tu atendia com enfadonho e eu desatava a chorar quietinho. Que meu orgulho me impediu de te dizer o que queria dizer. Agora digo por ter orgulho á você.
Por ter feito eu passar pelo que passei, te agradeço de paixão.
Sem você, não saberia que a menina de cabelos coloridos e tatuagens sabe me dar e se dar mais do que você.
Mas saiba, sem nenhuma ofensa e saudade, sem você eu passo bem demais.
Obrigado, amor.

segunda-feira

Dia 80 - Temporada de caça


Temporada de caça de Baleias. De outras mulheres. De pequenos momentos onde todo mundo deve se preparar.
Todo mundo com um pouco de cor, um pouco de casa aberta também, e, super bronzeados com cara de pantone. Ninguém com aparência de quem ficou um inverno inteiro de frente pro computador, ninguém saindo com os cachorros, se exibindo com orgulho na praia, brincando de ser musculoso.
E os Domingos que eram vazios, agora eram mais calmos do que nunca. Caminhando a beira da praia, deixando o sol cair lá ao fundo sob seus olhos, e aquele som de alguma guitarra distorcida num quiosque de madeira copiando casas de honolulu, um metal de alguma banda local distoando de algum lugar, aquele maluco com jaqueta cheia de bandeiras e selos de bandas que ninguém nunca ouviu falar, mas eles sim. E tu entra, de chinelo, shorts, camisa branca. E o som toca, como se amaldiçoasse o dia que tinah nascido, e, você conversa, não bebe nada e encara aquela mina de cabelos laranjas e espartilhos roxo, olhos verdes postiços e lindos. Toda ela, uma amálgama de cores e desejos e seios fartos. Ela foge completamente do que deveria ser procurado no verão. Ela é outro lado. Mas, curiosamente, ela também tem a cor quase como se contornassem um breve pincel de quem foi colorido pelo sol. E mais nada.  Toda ela tem curvas. Não é a magricela de academia nem a sarada de qualquer filme desses que você vê para gastar energia e pegar no sono. Não. Ela tem curvas, ela tem tudo. Ela é maciamente necessária de ser observada e adoravelmente interessante. E, ela conversa bem, ela é inteligente, ela é tudo e você esquece do som, e encara as ondas da mureta do quiosque havaiano. Maré baixa, os insetos voam pelas luzes, a noite nem é tão quente assim. O melhor é saber que tudo aqui tem seu passo exato. Que não há pressa de tentar investir na garota de espartilho. Que tudo aqui quer me revelar. Porque ninguém sabe o que acontece. Porque não há novidades. É verão e eu entendo o sentimento de algumas pessoas se ainda elas estão tristes.

Dia 79 - Nota Azul

Uma hora dessas, John Coltrane vai tocar a nota azul. Uma hora dessas, a gente vai deixar a quimbá de cigarro queimar a mão enquanto dormimos. Uma hora dessas, um cão vai uivar bem longe, na rua fria, enquanto o vento corta a noite, e outro cão responde enraivecido e babando em algum portão de grades. O filme vai tá passando mudo e á cores Samuel L Jackson limpar o sangue como profissão. Vai ter o frio no estômago e um sono profundo cada vez que pisca. Uma hora dessas, você vai ter fome, na hora do lobo, a hora onde crianças mais nascem e as pessoas mais morrem, a hora do ponto sem retorno no meio da madrugada, a hora da larica, a hora do miojo mal feito que você como al dente porque não tem tempo para esperar os três minutos. E o odor gostoso de produto de limpeza. A roupa lavada do omo, o químico da privada, o perfume da gare que desce de alguma vizinha que tomou banho ás 4 da manhã. Uma hora dessas, eu vou estar esperando responder todas minhas conversas, e rir, e pensar que tenho que dormir mas penso mais em você do que no meu sono e que sentir teu cheiro e seu olhar para mim é mais importante, e os filmes e as conversas e o Jorge e o Richie e o Danado e o ônibus e o fim da noite e o sorriso de chegar em casa e o tirar as calças e o banho enquanto espero responder espero comer espero ver te ver para esperar e o tempo que demora e o tempo que passa e o que passa e você e você e você que dorme que dorme que dorme...

Dia 78 - A Cabeça


Tudo o que eu criei e tudo que eu falo é falso. Somos todos seres de giz salpicado por estrelas. Nada aqui é real. Se você, tem alguma dúvida disso, olhe para si mesmo.
O que você escolhe ser é real?
Suas escolhas vão mais além daquelas que você planeja?
Eu quero que você se foda.
Desculpa. Eu sei que até agora você tava lendo isso, tudo isso e pensando, 'que porra de pessoa é essa?'. Pois é, eu sou real. As cartas que te mando não são. Aliás, você nunca me respondeu.
Sei  que devo esboçar alguma reação em você porque se você chegou até aqui, até agora, algo tem te tocado. Ou repugnado. Você vai ser sempre esse ser silencioso...
Talvez você fique até o fim. Talvez não. Talvez você se mate. Talvez não. Com certeza, eu faço isso. A ideia é essa, não é? Então, já sabendo o final dessa epopeia  mesmo sabendo o último capítulo, você ainda vai continuar por aqui? E se eu não terminar? Se eu parar no meio? A frustração vai ser enorme?
Eu nunca conclui nem executei nada na minha vida que pudesse ser citado como um grande feito.
E eu vou reclamar um pouco mais o direito de tentar ser algo que não sou. 
Só estou me usando de uma arte que ninguém se importa para tentar ser um pouco mais daquilo que me cabe não ser.
Eu sou a cabeça na beira da estrada de terra que você vê quando todos os rádios avisam para não passar naquela estrada pois um louco insano está matando motoristas. Você é o motorista. Que não consegue desviar o olhar da cabeça, que entra nessa estrada por curiosidade mórbida. E o louco insano é essa história sem moral nem ética. Sem papas na língua e tudo que eu quero é que a cabeça role embaixo do seu carro e você esmague ela.