RSS Feed
Os dias são contados. O Tempo passa. E se caminha cada vez mais como se fosse um diário de um eunuco.

quinta-feira

Dia 90 - Balada


Hoje meu dia foi memorável. Foi talvez um dos meus melhores dias.
Foi aquele tipo de dia que acontece algo inacreditável.
Você que está lendo isso agora, pare e reflita um pouco em algum dia que teve um acontecimento único e maravilhoso.
Tire alguns minutos. O meu foi você. Você mesmo que está lendo isso.
Quando eu não te vejo, quando eu não te tenho e quando o tempo tá fechado e frio que ficamos tristes ou muito quente e abafado que não podemos pensar.
Eu sempre penso em você. Na verdade, meu dia é ótimo quando você vem me trazer um doce.
Ou me beijar e dizer seu dia.
Se o carro parou numa batida. Se o preço da festa tá muito caro. Quando eu faço o seu prato preferido. Ou quando você deita no meu peito. Calmamente, se leva pro mundo dos sonhos.
Sua pequena cabeça pesa e eu sinto o cheiro dos seus cabelos, e, meu hábito de passar meus dedos por entre eles até sua nuca. Cafuné de quem não precisa de cafuné porque já dormiu.
E seu braço deitado no meu colo. Seu leve respirar de quem dorme como um infante protegido por qualquer força superior seja ela meramente conhecida como Deus.
E os dias que você não vem. Esses são os piores porque eu sinto falta de você.
É. Ás vezes, eu sinto falta de você.
Então eu pego sempre um pedaço de ti.
Um pouco de cheiro. um tanto de pêlo. Um bocado de gosto e guardo tudo.
Pra quando eu sentir saudades eu desguardo e abro pra amar você um pouco mais.
Você é minha só por deixar ser, então, seja minha por querer.
Que eu quero sempre mais e mais você junto e próximo.
Mesmo não sabendo fritar um ovo. Com a paciência única de quem não tem paciência no trânsito. Preferindo a festa particular nossa.
Sempre babando no meu peito e disfarçando.
Tudo isso é memorável. Você é memorável. Meus melhores dias são você.

terça-feira

Dia 87 - O Velho

Quando a luz voltou, seus olhos estavam meios cegos pela claridade e na sua mão esquerda ele sentia uma bola pesada de lona, como uma bola do tamanho de um punho dessas de velhas que usam para crochê e que gatos teimam em se enrolar.
O frio vinha assobiando por baixo da porta da entrada de casa...
Da janela com os braços meio fechados, pelo vime, ainda se via lá fora as luzes do fim do dia que se esvaia...
O som de alguns cães brincavam na rua. As crianças se endiabravam com o jeito engraçado de pular e morder dos vira-latas que babavam.
Cós de calças rasgadas e blusas sujas de suor. 
E o velho lá.
Os cabelos vermelhos das moças jovens pegavam carona com os abraços dos namorados, era o mesmo cheiro das acácias do jardim.
O café já bulia quente no fogo e jé empesteava a casa.
E o velho lá.
Seu coração calmamente foi se fechando, como uma craca que se finalmente assenta numa carcaça de um navio que chegou ao fim de navegar e ali, fica. Parado á beira do mar. A navegar com o solavanco. A solavancar o navegar.
Como um totem de um bastião negro o velho ficava com sua barba branca parado.
Sua mão calmamente se abre e a bola de lona rola. Um pequeno ser de petas negras e olhar manso vem miando pelo chão carmim de azulejos. Ariarranha o novelo olhando para cima. 
Se para um pouco. 
O café apita.
A acácia cheira.
os cães rosnam.
As crianças riem.
O velho lá.
Dorme.

Dia 86 - Vai ter você


Vai ter tempo de esperar e tempo de chegada.
Vai ter gente sofrendo por maldade alheia e música tocando em todos os corredores.
Vai ter pessoas que irão sorrir por ouvir saber que tu vai chegar e que eu vou partir pra te ver. Vai ter época de vontade de sentir saudades e saudades sentidas.
Vai ter teu cheiro no travesseiro e um sorriso no canto da boca só por sentir você por perto, dando a volta na cama e vindo me agarrar assim que deito.
Vai ter estranhamento de acordar sozinho e desacostumar que nem mil punhetas irão resgatar a tua presença, branquela.
 Um dia, acordar e ter você na cozinha fazendo café e sorrindo dando bom dia.
O bafinho de leite de bicho novo no pasto.
E o sol quente dizendo praia ou cama pra passar um domingo de preguiça.
O cansaço do fim do dia que só o telefonema com a voz do outro lado acalma e faz passar toda tensão. Vai ter amigos aposentando as tentativas de entender nossa vida.
Vai ter família pedindo pra voltar pro lar e sair do cativeiro.
Vai ter você.
Vai ter eu. 

Dia 85 - O que dói?



Quando eu morri também não doeu nada. Sério. Acordei nove dias depois do coma sem sentir nada.
Sem sequelas, sem dor. Pra dizer a verdade, bicho. A minha mão aqui. Essa. A direita. Doeu demais.
Mas depois veio o apagão. Ficando tudo preto. E eu fui embora.
Aqui na testa, meu cérebro saiu tudinho. Senti a massa Cêfalica saindo... é isso né? Cêfalica.
A porrada foi tanta. Eu tava onde tu tá ai, nego. Sentado no banco do passageiro.
Veio a caminhonete de frente. Era um Reboque. A luz cegou a gente, deu pra dar uma guinada pro lado e desviar, mas ela trazia um motor de carro.
Acho que era de fusca. Porque era muito grande. E você sabe como é esses monstros fabricados antigamente. Coisa de Primazia e gigantismo. O motor se soltou das correntes e veio voando no nosso carro. Quebrou capô acertou o vidro em cheio entrando na cabine. Quebrei todos os dentes da frente.
Cuspi dente, sangue, senti aquele gosto na boca, na garganta. Sabe aquele zunido. Foi ai que tentei olhar pro lado mas não conseguia. Começou a escurecer, escurecer...
Senti a minha testa, tinha um rombo aqui. Ah, a foto do acidente tai no porta-luva. Abre ai. Oh, tá vendo. Foi bem aqui que entrou o motor e fudeu comigo. Minha mão foi prensada e foi essa dor que senti. Tentei olhar pro lado. Só vi a mão dela tentando segurar a minha. O velório foi feito sem mim. Enterro sem mim. Eu acordei e não tinha mais nada. Tristeza? Dá no começo. Um vazio. O que dói mesmo não é perder a pessoa, eu nem chorei.
Mas o que dói é não me lembrar de como ela era. Isso dói.

sexta-feira

Dia 83 - Três cadelas já foram atropeladas atravessando a rua



A mulher da recepção improvisada que eu acabo de conhecer tá tentando me convencer em adotar um filhote de cachorro. Eu só vim me inscrever na academia. Parado por mais de anos com a desculpa de que meu joelho é fudido do lado direito. Mas, na verdade, a culpa é do joelho, da cerveja, das noitadas, da minha mania de achar que o melhor exercício é sexo e tentar fazer ele na maior quantidade possível quando namoro. Um dos motivos também por não fazer academia. Ela me fala da casa em frente à academia que a cadela deu luz á oito filhotes, mas já morreram três que fugiram da casa. Por algum motivo, eu ouço a história toda sem quere interromper ela. Não tô querendo ser simpático só não tô querendo ser chato. Eu fico esperando ela falar e terminar, olhando de tempos em tempos pra casa, pra bunda de uma negra que só tem bunda e toda ela é feia malhando, e, aos comentários que ela tece. Na verdade, eu até pegaria um filhote, mas tenho um cachorro em casa. Ela diz que já tem cinco em casa. O meu é um Golden Retriever. Todos dela são vira-latas. Por algum motivo, eu me sinto esnobe e quase na obrigação de pegar um vira-lata, da mesma forma, que quando se está no metrô e você tem de se levantar para dar o lugar para uma idosa mesmo que você tenha passado um dia estressante e cansativo. Mas eu escolho ficar sentado no banco e digo que realmente eu não posso pegar com a vaga desculpa de que minha mãe pode me matar. O que pode ou não ser verdade. Mas, finalmente ela passa o meu cartão na máquina, eu escolho o horário mais barato para usar a academia. Um tal de Marcelo é um dos personal trainers da academia e ele me mostra a modesta operação... Os instrumentos pesados ficam numa sala direita e os aeróbicos misturando com alguns outros tantos de musculação ficam no esquerdo onde é a entrada. Tem uma música dessas de academia e descubro que tá tendo aula de spinning no segundo andar. Mal quero entrar para não causar nenhum incômodo e também por vergonha. Explico calmamente sobre meu joelho enquanto ele mostra o resto da academia que é toda acolchoada com espumas que formam um grande quebra-cabeça azul. Subo e a negona da bunda tamanho carro forte tá fazendo exercícios de bunda. Resolvemos intuitivamente que ali é o melhor lugar para terminar e continuar o papo. Ele ouve e marcamos a primeira sessão de manhã.
Eu dou boa sorte pra dona dos cachorros e doadora estimulada. Saio com uma leve impressão de que ela é simpática demais pelo fato de querer ser simpática ou que só queria que eu tentasse levar um. Dentro da minha cabeça, já tinha desistido antes mesmo dela tocar no assunto. Eu voltei pra cá para descarregar malas, voltei pra um lugar bucólico, onde nada acontece e não vou agregar nada mais comigo daquilo que já tenho. Não sei o que posso fazer. Mas vou continuar...

terça-feira

Dia 81 - Sem Você




Sim, eu vou bem. Muito obrigado por me fazer tão bem. Nunca um abandono me proporcionou tanta mudança.
Mesmo que favorável, só vi no final.
Sem a tua presença emagreci mais do que qualquer dieta convencional, não que eu quisesse. Por isso, não precisa essas caras de espanto ao me ver sorrindo e feliz. Ando bem sem você, obrigado. Esse sorriso é a única defesa que eu tenho depois de passar noites á fio preso no meu pijama mal-lavado dentro do meu quarto sem sair. Sendo iluminado pelas fotos eletrônicas da tua felicidade. Vendo as noites de bebedeira que tu compartilhava com qualquer um, eu compartilhava com a minha solidão. Criei um amigo imaginário além daqueles que tínhamos inventado. Era o Señor Jack, ele vivia numa garrafa e no meio da madruga estava dentro de mim e ao cansar da solidão aqui dentro, se mudava para o fundo da privada. Mais nobre porcelana do que meu estômago frio.
Olhar frio? Não. Fico feliz que você já não saiba mais ler meus traços. Foram dois meses me treinando para reerguer sozinho. Sofrer de amor é como um hospital de guerra. Você espera que alguém te dê alta e você volte pro lar, mas ali é teu lar. Você espera boas notícias. Que volte a enxergar. Que teu membro amputado volte pulando para o seu braço divorciado. Por isso, esse meu olhar difícil de descrever. Eu passei pela guerra. E sobrevivi. Esse meu olhar é só carinho.
Porque tu tá engolindo seco? Toma um gole. De cianureto. Não quero que tu morra. Pessoas como você são imortais. Vão viver, de verdade, bem lá no fundo no fundo do poço que é o coração. Na parte do sótão que tu nunca abre porque sabe que é cheio de tralha e poeira e coisas peçonhentas. Mas também é um lugar mágico e misterioso. Tu revisita de tempos em tempos só pra acreditar que passou por aquilo. O sótão te ensina uma lição. Coração bate forte essas horas. o meu andou descompassado por você, sem saber que horas era, onde você estava, que eu ligava e tu atendia com enfadonho e eu desatava a chorar quietinho. Que meu orgulho me impediu de te dizer o que queria dizer. Agora digo por ter orgulho á você.
Por ter feito eu passar pelo que passei, te agradeço de paixão.
Sem você, não saberia que a menina de cabelos coloridos e tatuagens sabe me dar e se dar mais do que você.
Mas saiba, sem nenhuma ofensa e saudade, sem você eu passo bem demais.
Obrigado, amor.

segunda-feira

Dia 80 - Temporada de caça


Temporada de caça de Baleias. De outras mulheres. De pequenos momentos onde todo mundo deve se preparar.
Todo mundo com um pouco de cor, um pouco de casa aberta também, e, super bronzeados com cara de pantone. Ninguém com aparência de quem ficou um inverno inteiro de frente pro computador, ninguém saindo com os cachorros, se exibindo com orgulho na praia, brincando de ser musculoso.
E os Domingos que eram vazios, agora eram mais calmos do que nunca. Caminhando a beira da praia, deixando o sol cair lá ao fundo sob seus olhos, e aquele som de alguma guitarra distorcida num quiosque de madeira copiando casas de honolulu, um metal de alguma banda local distoando de algum lugar, aquele maluco com jaqueta cheia de bandeiras e selos de bandas que ninguém nunca ouviu falar, mas eles sim. E tu entra, de chinelo, shorts, camisa branca. E o som toca, como se amaldiçoasse o dia que tinah nascido, e, você conversa, não bebe nada e encara aquela mina de cabelos laranjas e espartilhos roxo, olhos verdes postiços e lindos. Toda ela, uma amálgama de cores e desejos e seios fartos. Ela foge completamente do que deveria ser procurado no verão. Ela é outro lado. Mas, curiosamente, ela também tem a cor quase como se contornassem um breve pincel de quem foi colorido pelo sol. E mais nada.  Toda ela tem curvas. Não é a magricela de academia nem a sarada de qualquer filme desses que você vê para gastar energia e pegar no sono. Não. Ela tem curvas, ela tem tudo. Ela é maciamente necessária de ser observada e adoravelmente interessante. E, ela conversa bem, ela é inteligente, ela é tudo e você esquece do som, e encara as ondas da mureta do quiosque havaiano. Maré baixa, os insetos voam pelas luzes, a noite nem é tão quente assim. O melhor é saber que tudo aqui tem seu passo exato. Que não há pressa de tentar investir na garota de espartilho. Que tudo aqui quer me revelar. Porque ninguém sabe o que acontece. Porque não há novidades. É verão e eu entendo o sentimento de algumas pessoas se ainda elas estão tristes.